domingo, 6 de julho de 2014

Transfiguração

 





Um rabo de cavalo
ainda há pouco
balançava perfumes
em pequeno jardim de delícias.

Porta e palavras
cortaram o encanto.
Tudo o que sobrou
foi um canteiro
mudo,
sujo
e muito mal cuidado.


sábado, 5 de julho de 2014

Kamikaze


























Este poema fez parte de Sopa & Veneno,  livro nunca publicado, menção honrosa no Prêmio Escrita de Literatura de 1976.

Kamikaze

Pássaro de galochas e pincenê
solto as asas da liberdade
na curva do horizonte.
As penas vão se despejando
do alto de voo noturno
numa imitação de estrelas.
Em certo momento o motor enguiça,
as asas perdem o balé do movimento
e o pássaro caio num galope mortal.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Bloqueado

















O poeta
dá a volta
por baixo,
sai do outro
lado
da tempestade
de enganos,
intacto
o fogo
da palavra.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um soneto perde a cabeça e a rima


















Chega-se lentamente ao fundo falso
da memória. Tudo o que se descobre:
a falta de saída do cadafalso.

De um lado, o câmbio de ouro por cobre;
noutra margem, palavras fora de uso,
e no meio, alma e corpo em parafuso.

Contra a sentença do jogo do bicho
não vale o escrito se não se grava
na testa do sentenciado o grito
do número da derradeira data.

A favor do condenado, o direito
ao último fósforo e à folha em branco.
Que a última palavra seja um poema
que se queime como lençol em chamas.


Corpo a corpo
















Lutávamos
sem luvas
as migalhas
povoavam o chão
o sofá
o tapete
cujos desenhos
se perderam
à espera
da harmonia impossível

Lutávamos
porque as palavras
(muito mais pesadas)
eram mais impiedosas
do que os golpes
baixos
que revelavam
a intimidade
de nuvens negras

Round a round
exaustos
até cairmos abraçados
à espera de desforra




Midiavalismo




























a demokraken
baila
dez tentáculos
acima de quem canta
fora de coro
e coreografia
com a Orquestra Tabajara
a plenos pulmões

o cefalópode democracudo
espalha o terror branco
e dança
logo acima
do pescoço
onde a jugular
salta
fora de cabresto
ordem
órbita


sábado, 28 de junho de 2014

Idílio urbano

Obra da pintora espanhola Nicoletta Tomas Caravia

























Taça de frascati
ao cair da tarde
do outro lado
da mesa
e tudo o que se bebe
refrange
raios de tristeza
nem o burburinho
do centro da metrópole
apaga a felicidade
inscrita
em guardanapo
com o qual lábios
se abrem
em lânguida vontade
para se limpar
de beijos inesperados.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Amador

Edvard Munch, "A Separação II"
















Quem nunca
levou chute
na grande área
amorosa
não entrou
de peito
aberto
no campo
dos afetos.


na arena só os bárbaros


todo
poema
gol
contra
nuvens
jogo
instável
quebrar
as louças
do logro
na bolsa de apostas
nada a ganhar
em campo minado

drible
de corpo:
viver
inventado



sábado, 21 de junho de 2014

Antivoo

























ela prende a respiração
até que o fôlego
falte
e os pássaros
pequenos pontos
estampados
em lençol azul cobalto
asas abertas
em volume máximo
os pulmões
quase estouram
bolhas de ar
alta pressão
de nuvens de algodão
em corpo ferido
de céu
e solidão 


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Faunosfera

Cabeça de fauno, Pablo Picasso


Explorando novos recursos. Siga aqui as pernas antipoéticas de fauno exausto de tantos descaminhos.