sábado, 19 de julho de 2014

Dez tábuas

Escultura de Jadir João Egídio














I (palavras)

em curso
as correntes
áureas algemas
no pulso
taquicardia
taquigrafia
fluxo
em curto
a energia vaza

para o caos
bastam 10%.

II (salvação)

Para o fundo
o ferro fundido
em Cremona,
o ver de olhos livres,
das meninas da gare,
a máquina do mundo
dos irmãos Dante & Drummond,
o concreto
entre design e divino,
clowns e espectros de Shakespeare,
o anjo Gabriel bêbado
no Cabaré Voltaire.

Não há mais reservas
para o Paraíso.

III (império)

Os ratos robustos
em seus turvos discursos
de tungstênio e medida milimétrica.
Vetustos sacripantas da onipotência
em ilusões de ética
para répteis.
Lixocracia,
o mal hálito do poder
arrota democracia
com tropa de choque,
estatísticas falsificadas,
demagogia.

Fezes e vermes,
a gosma de Leviatã.

IV (sentidos)

Carne sem tecido
ideias
no oco de ossos
sombras
no balé das ruínas
de signos fixados
simulacros
crucificados
nos objetos perdidos
entre a estação central
e a borda
do abismo
onde tudo desaba.

Sem noção,
tudo sem noção.

V (verdade)

Tratados teológicos,
cartas de princípio,
documentos secretos,
agendas,
certidões negativas,
ordens de despejo,
intimações da justiça,
cadernetas de vacina,
listas de compras.
declarações de fé,
relações de bens,
declarações de imposto de renda,
históricos escolares.

Em nenhum arquivo
vive a verdade.

VI (tempo)

Dez mil amigos virtuais,
um novo mausoléu flutuante
para embalsamar o tempo
em saquinhos de saquê ou de sacolé.
Nenhum espaço
sem preenchimento,
todos os mil itens obrigatórios.
Não esquecer sorriso permanente
frases  de vencedor,
expressões de triunfo.
Acúmulo de bolsas
e acessórios.

Os vírus hackearam nosso fígado.
Os vírus apagaram os relógios.

VII (amor)

Só me lembro de Eros
quando o computador
dá pau
e aparece error
no monitor.
Os grandes amores
gosmentos
congelados no freezer
para toda a vida
sempre haverá outra
saída.

O amor morreu de retórica
pouco antes do almoço.

VIII (inimigo interno)

Há algo comigo
que não assimilo.
Em mim
o mais distante
horizonte
rasga o umbigo
e segue adiante
indiferente
ao meu pânico,
um afluente
inverso
- rio de matéria escura-
corre em refluxo constante,
ilegível verbo evasivo
inconjugável
conjura a falência dos sentidos.
Entre pleura e pneuma
o trânsito de inessência
intratável,
um lance
sempre fora de alcance.

E se eu for
somente aquilo que me escapa?

XIX (corpo)

Parafusos de titânio
no maxilar
para que as palavras
fora de fuso
soçobrem horizonte
eviscerado.

Da carne em ganchos
e febre
no frigorífico
pingos de suor
desgastam frágil guarda-volumes.

O rosto
profano sudário
fora de uso
trêmulo desenho
inconcluso.

Movimento peristáltico
do corpo
nuvem difusa
suicida
no vaivém
das cordas vocais.

Extirpar do rosto
todas as cidades perdidas.

X (horizonte)

Prestar atenção
ao excesso
não para podá-lo
mas ampliá-lo
até o limite
insuportável
do palco
onde ondas
desabam
círculos
em debandada.

espreitar
o que se acumula
como pus
nas palavras
extremas
espremê-las
em linhas
no sentido anti-horário
até não mais
alcançá-las.

Todo excesso
também é um deserto.


domingo, 13 de julho de 2014

Símile





















Por não poder
atravessar a via expressa,
sentei-me à mesa de um café
de sombras,
pedi um cappuccino,
abri pequeno caderno cinza
onde me aventuro nos pântanos
de outra cidade.

Para minha surpresa
encontrei palavras
sorvendo em silêncio
o licor ambarino da calmaria,
percebi que há muito tempo
também não conseguiam
atravessar linhas inimigas.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

À espera dos homens de bem














Pausa para respiração
antes que os homens de bem
assinem bons costumes
noturnos
libações memoráveis
gordas comissões
reputações ilibadas
leves
as meninas
levadas
na fumaça de charutos
intragáveis.



Aos que talvez fossem não fosse um talvez















Fique com as suas certezas na sala,
descanse ao peso da verdade,
condene as mãos que danificam
a sua zona de conforto,
a paisagem encantadora de sua janela.
Apodreça com método e manuais
de dialética,
após decifrar novas teorias sociais
de encarquilhados filósofos do mundo morto.
Guarde a raiva e a impotência
para dizer na minha cara:
- Eu não falei? Viu que furada?
Já ouvi seus vínculos
com o medo,
seu compromisso com as migalhas
da vida universitária.
Você acha que milhões de pessoas
são fascistas, eu sei.
Todos os que não seguem
sua eterna ladainha derrotista,
todos os que não se curvam
à redução da política ao oportunismo eleitoral,
todos que percebem que
seu esquerdismo estéril
é incapaz de alcançar a língua da favela e do camponês,
todos os diferentes de você
formam, a seu juízo, um exército de alienados.
Você é foda, é o fodão,
desde que a direção seja sua,
desde que seja você o capitão.
Numa coisa você e o burguês
são exatamente iguais:
ambos se mijam e se borram
quando o povo explode.
Então precisa localizar as falhas,
nunca, no entanto, estão em você mesmo,
nunca reconhece que sempre samba do lado errado,
por isso a culpa está sempre do outro lado,
nos inimigos de plantão:
“isso é um golpe”, “é a CIA”,
“é a FIESP”, “há muito grana de fora”,
“o povo não sabe votar”.
Sim, os bárbaros estão lá fora,
o BOPE está lá fora,
o blindado está protegendo a ordem
que nos massacra,
os neonazistas estão sedentos de sangue,
a direita apresenta as suas armas,
a mídia anda doida por centenas de vítimas,
filtra, explora e expurga as imagens,
o serviço de delação dos que lutam
já se acoplou à espionagem na rede,
mas também estarei lá
não para negar
mas para aprofundar a democracia,
para soprar o vento do inconformismo,
para espalhar a rebeldia
sem a qual nada irá mudar neste país.
Se você prefere ficar abraçado
à certeza, à costumeira arrogância de
uma suposta verdade, fique.
Digite uma petição, faça o enésimo
abaixo-assinado por uma boa causa.
Mas gostaria de estar ao seu lado
nas ruas, abraçá-lo, beijá-lo
mesmo no meio da incerteza e do dilúvio.
Você diz que não há rumo
que estamos perdidos
mas você está precisando se perder
para encontrar a sombra de um caminho.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Antes que a chuva caia

Manabu Mabe
















A última porta
ainda não foi aberta
(talvez atrás dela
outras à espera)
mas algo expirou
à tarde
antes que nuvens
preparassem a mesa
para a tempestade
não mais a atenção
acurada
a apetitosa obediência
à carne verbalizada
impulsiva
despido de concentração
em nichos vazios
sem os botões da camisa
sem os sapatos de deriva
existencial
os cadarços em nós
apertados no pescoço
das questões essenciais
sem os dentes da poesia
na polpa suculenta do nada
sento-me à margem
da ferrovia
onde trabalhei 24 anos
o corpo oxidado
velho vagão vagabundo
sento-me exausto
de falhas e quimeras
fecho os olhos chamuscados
de ironia e pesadelos
começo a cantar
única maneira
de seguir em frente
quando as pernas já não se movem mais.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Flores civilizatórias



























Madre Ufana
adestra infantes,
manada futura
de linchadores,
infames
bola-patriotas.


domingo, 6 de julho de 2014

Wordinária














essa palavra
curva
essencial
finício
ondulatório
fala
antigravitacional
movimento
pedra
no sapato
de ser
a órbita
corrompida
lua
anômala
de verbo
defectívo


Haicai




Paz, repouso, pássaro.
Tumulto ao redor do canto.
Harmonia no centro.


Transfiguração

 





Um rabo de cavalo
ainda há pouco
balançava perfumes
em pequeno jardim de delícias.

Porta e palavras
cortaram o encanto.
Tudo o que sobrou
foi um canteiro
mudo,
sujo
e muito mal cuidado.


sábado, 5 de julho de 2014

Kamikaze


























Este poema fez parte de Sopa & Veneno,  livro nunca publicado, menção honrosa no Prêmio Escrita de Literatura de 1976.

Kamikaze

Pássaro de galochas e pincenê
solto as asas da liberdade
na curva do horizonte.
As penas vão se despejando
do alto de voo noturno
numa imitação de estrelas.
Em certo momento o motor enguiça,
as asas perdem o balé do movimento
e o pássaro caio num galope mortal.