quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A era do descontrole












o mecanismo crescente
asséptico
eficaz
edificante
graças ao qual
o homem futuro
pisará em faixas
demarcadas
apesar da lama

mover-se biomecânico
de asas cortadas
passos ao comando
de cálculo e carnificina
os impostos em dia
a mão à altura do peito
frases-feitas queimando a boca

os risos no terceiro botão
à direita de quem morre
por erro médico
ou efeito colateral
do programa império da prosperidade

quem quiser
pode pegar folheto
com instruções
sobre o fim do mundo

denúncias anônimas bem-vindas
contra o informe
o aberto
o incontrolável
a palavra não catalogada

pagamento na saída


Fulgor




Presa em Laranjeiras
pepita de maior quilate
palpita no peito.

domingo, 10 de agosto de 2014

Passaporte

Manabu Mabe, "Vivacidade", 1966




















Sujo de lodo
e enxofre,
com mercúrio na alma,
tudo o que busco
no fundo de fossa abominável
é um poema,
um único poema,
pequeno diamante
quase ilegível,
um poema impossível
a fim de apresentá-lo
a Deus no dia
em que os sem-juízo
serão conduzidos ao inferno
da ressurreição.

Um poema
salvará a minha alma
da eternidade.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Haicai




Malha o ferro-velho

no galho mais alto e frágil 

o metal da voz. 


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Dia de visita
















“¡Oh ciudad de los gitanos!
La guardia civil se aleja
por un túnel de silencio
mientras las llamas te cercan
.”

- Federico García Lorca


Puxou
a cordinha de náilon azul
bem resistente.
Com calma, sacou da xota
uma trouxinha de maconha,
um celular,
dois abortos
e os corpos dos dois irmãos
assassinados pela polícia.


Huaco, de César Vallejo




César Vallejo jogou as letras do idioma de Pizarro em vaso cerimonial, temperou-as com ervas e preces quíchuas. O que ficou no fundo, sacudiu com as mãos ossudas até obter o movimento rotatório construído com papel e barro - o círculo milenar que guarda lhama, condor, puma e poeta. Muito além dos Andes paira o mistério da passagem ritualística do micro ao macro, viagem clandestina do ponto de sagração e de sangramento à esfera instável do planeta e de todo o universo. 

Huaco

Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.

Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.

Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.

Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.

Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!



Huaco

Eu sou o coraquenque cego
que olha pela lente de uma chaga,
atado ao Globo
como a um huaco estupendo que giragira.

Eu sou o lhama, a quem tão só alcança
a necedade hostil de tosquiar
ornatos de clarim,
ornatos de clarins brilhantes de asco
e bronzeados de velho yaraví.

Sou filho de condor desplumado
por latino arcabuz;
e à flor da humanidade flutuo sobre os Andes
como eterno Lázaro de luz.

Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos coricanchas batizados
de fosfato de erro e cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos exaustos de um extinto puma.

Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!

Huaco, cerâmica pré-colombiana. Corequenque, ave sagrada dos incas que usavam as suas plumas na confecção de coroas destinadas aos soberanos. Yaraví, canção que funde elementos de origem indígena e hispânica. Coricancha, grande Templo do Sol, em Cuzco; sobre as suas ruínas os espanhóis construíram a igreja de Santo Domingo.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Miragem

















Erosão
erótica.
Paixão:
ilusão
de ótica.



Pesadédalo *














noite
labiobabel
labiobabélicos
labirintos
borgiariadnes
dos quais se sai
com sal nos olhos
áridos
por túneis Hamas
na carne viva
de poemas virgens
na língua
de papel branco
Minotauro
aterroriza
oferendas vivas
à míngua
em beco sem saída
Teseu
não dorme mais
no ponto
entre o fio
e o detonador de mitos

em arenas de Cnossos
tecnomorcegos
elevam nível de sangue
e ranger de ossos
a pico de audiência



* A palavra “nightmaze” foi criada por Joyce (capítulo 13 de “Finnegans Wake”). O poeta Leonardo Fróes traduziu-a como “pesadédalo” na expressão “nightmaze novel” (romance de pesadédalo) usada por Lawrence Ferlinghetti no poema 29 de “Um parque de diversões na cabeça” (L&PM, 1984), forma que me parece preferível à utilizada por Donaldo Schüler, "onirodédalo".


sábado, 2 de agosto de 2014

Trinca - parte II

Iberê Camargo


A segunda parte do meu conto Trinca sobe e desce as escadas de Mallarmargens

http://www.mallarmargens.com/2014/07/trinca-parte-ii.html

domingo, 27 de julho de 2014

Domingradeado










Sob o cobertor
inquieto
escuto reclamações
de folhas
nas mãos sem luvas
de vento avesso
a corpos quiescentes.


sábado, 26 de julho de 2014

Zé Keti



















Fina flor
do samba
desfila
saudade
em minhas retinas.


Luta de classes

El Lissitzky


























“Sintagma extinto”,
medita conceituado linguista
entre a Suíça,
o país final de contas,
e o haras em Araras,
onde pastam portentosos
andaluzes
 campolinas
 manga-largas.