quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sem palavras

"Cambio", William Kentridge, 1999






















Não há mais cartas.
Os bilhetes, fora de moda.
Telefone e e-mail, deselegantes.
O amor agora acaba sem palavras.



domingo, 12 de outubro de 2014

Manutenção de sistema


















A turba trama
A turma treme
A paranoia turva
O medo curva
Trava a turma
O trauma e a urna
A treta e a tramoia
As tribos e as trevas
A trampa e o furto
O tumor e a tunga
Turbas às turras

O sol não nasce em urnas 

sábado, 11 de outubro de 2014

Onde nascem as tempestades

























A tempestade
se aproxima
da costa.

As ondas
já sondam
areias
expostas
ao sol.

Rochas
fechadas
em erosão
íntima
acusam
golpes
a cada minuto
mais intensos.

Algo no horizonte
não se encaixa
na rosa dos ventos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Regalo


Liana Filimonov






















impossível degustar
o aroma da manhã
páginas não escritas
nublam a descoberta
do sabor
esqueço de desfiar
o fio de azeite
sobre a salada de nuvens
sem óculos
a mesa quase em branco

o cerne do saber
decerto
fora da travessa de cherne
tudo o que se quer
a polpa dulcíssima do teu corpo
do outro lado da mesa
o céu aberto




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Nênia para Loukanikos






Nênia para Loukanikos

Caninos cravados
nas pernas de vermes
agora jazem em silêncio.

Argos anárquico
a liberdade nos pelos
na luta
nas ruas
onde gregos em guerra
contra as moedas de novos persas
reinventam asTermópilas.

Quem disse que cão
que late não morde
dirá o quê
sobre cães que se insurgem? 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Cidade abandonada

Sebastião Salgado



















Virão os búfalos em manadas
Fogo nos olhos e nos cascos
Os cornos de vidro e plástico
Espetando o céu de dúvidas
E asco entre fios telefônicos
E as copas de árvores murchas
Manchando de caos o progresso
Gravado em cartazes gigantescos
Acima de marquises e sonhos
De consumo de zumbis sintéticos
Filhos de estatísticas perversas
E de psicolonialismo voluntário

Os búfalos dispostos a despropósitos
Disparam rancor e ressentimento
A cegueira condenatória do inconformismo  
saliva inevitável ausência de sobreviventes

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Como disse Cartola: "disfarça e chora"

Rony Bellinho




















Volto à meia hora
antes de o giro da chave
lacrar a porta
no final do corredor do 7º andar.

Não sabia
que o coração
sairia
rolando as escadas
porque o peso das palavras
ultrapassava
os limites do elevador.

domingo, 5 de outubro de 2014

A matéria escura da linguagem

Antoni Tàpies
















Mesmo nos verbos de predicação completa
aqueles que dizem tudinho
tim-tim por tim-tim
com arrogante solidão
move-se a sombra das palavras que faltam.

sábado, 4 de outubro de 2014

Haicai




Voa o poema
no vento. Todas as sílabas
fora do assento.

Travada














através
de palavras
em travessia
aves voam
de través

o peso das palavras
que  faltam
nas asas
trava
a migração
transversal ao sonho


Dos furos, a água

Robert Doisneau - M. Barre’s Carousel, 1955. (big fun)

                                      
Cobre o céu
extensa colcha de chumbo.
Dos furos, a água.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A caminho da Colônia Juliano Moreira





















A caminho da Colônia Juliano Moreira
vejo meu irmão
com um envelope amassado no peito
do outro lado da pista
da Linha Amarela.

Morto há mais de uma década
parece não se importar
com o tempo,
o corte de cabelo
e a roupa fora de moda.

Não posso parar
(o que teria a me dizer
virá escrito em sonhos).

Vou buscar minha mãe
no leito 13
antes que a noite desabe
a promessa de dilúvio no horizonte.

Não consigo encontrá-la,
o leito se esvazia
à medida que líquidos misteriosos
buscam veias perdidas.

Atrás do soro pendurado
na ferrugem de velho suporte metálico,
mulheres de branco
lembram almas do outro mundo.

Não encontro no Google
o caminho de volta.