sábado, 15 de novembro de 2014

Palavra inalcançável

























Sempre habitei
margens de erro,
desabilitado
a propriedades de cura.
A poesia, portanto,
nunca foi um caminho,
mas o único destino
impossível.


Manoel de Barros




Desvoo de ave
no papel azul do céu
tem nome: Manoel.

Vento nos bambus



Sete aves azuis
enchem água e céu de luz.
Vento nos bambus.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Chave perdida




Perdi a chave
das coisas simples
que caem
em estado de graça.

Escapou do bolso da calça
cerzida de mágoas
para a chuva
que caía
ácida e grossa.

Pequena chave de latão
de encaixe perfeito em latências
na região de fendas das palavras.

Recompensarei com abraço
tão estreito
que meu corpo ficará impresso
de modo incontrolável
na pele de quem encontrá-la.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Amor em curto

Rony Bellinho
























O amor deu a volta
de fininho,
fingiu que errou
o caminho,
foi bater em outra
porta
(dentro outra rainha
se fingia de morta).

Mancha

Jasper Johns


















“Toda palavra é uma mancha”,
sim, Beckett,
 “desnecessária no silêncio e no vazio”
Por isso espalho
no branco do papel
pontos cegos
até que a página
repleta de rasuras
amanheça impronunciável
e as palavras,
limpas de significados,
deem vida ao nada,
mãe de todos os poemas.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Fraternal














As datas apagadas
combinam com flores ausentes
e velas acesas
muito mais do que combinávamos,
crias de contrabando,
eu e você,
meu irmão salvador,
que só conheci  aos 12 anos.
e nada tinha a ver
com os heróis de gibi.

Guardo até hoje
o gosto da descoberta
de que minha  blindagem  permaneceria
intransponível
para o resto da vida
como seu retrato ainda jovem
agora
no jazigo à minha frente.




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Capitulação





















Era uma manhã vadia
de névoa sobre a cidade.
A noite atravessara minhas fronteiras
por isso eu via os seres e as coisas
flutuarem lisérgicos e quânticos.
Algo doloroso das horas escuras
resistia à retirada.
como se cego fosse ao encantamento
da pulsação acelerada da vida.
No movimentado interior do café
toalhas brancas e torpor
espiavam disposição alheia
e sonhos de dia esplendoroso
enfileirados como time de futebol
ao entrar em campo.

Noite, manhã e névoa,
entretanto,
foram desmontadas
tábua a tábua
quando alguém
atravessou a porta
e deixou meus olhos
de joelhos
fora da órbita
de qualquer razão.

Os dias felizes erraram o código postal

René Magritte, "Persian Letters", 1958























Perto é apartado,
apertado o peito
de passos em fuga.
Pouco importa
a distância
se o alvo
nunca na pira.

Perturbação
aberta
a cem metros
de nova
lição de abismo,
mais uma palavra
e seria possível
outra caligrafia.

O paraíso
vem
sempre
quando não me encontro
em mim.

Caixa de correios
agora
caixa de Pandora.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Movimento de rainha

René Magritte,"L'Évidence éternelle", 1930




















Águas passadas
não movem rainhas.

Amor e rusga

Rony Bellinho


Uvas, maçãs murchas,
cachos de canções absurdas.
Amor e rusga.