quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Relatório técnico de poema encontrado morto com três tiros no peito




* porta de entrada com sinais de rimas imperdoáveis
* pedaços de papel seda com rúcula e nervos pendurados no varal
* temas surrados e versões exaustas derramadas em bacias de latão
* acessórios para estados febris
* dicionário de palavras com ditongos instáveis e dentes cariados
* faturas vencidas sobre mesa de vidro partido da sala
* os tiros foram disparados da direita para a esquerda
* fatias do pão que o diabo amassou na cozinha / farelos de incerteza no piso
* fotossangrias com groselha em jarras do século passado
*sardas soltas de rosto desconhecido sobre o sofá verde musgo
* cocaína nas folhas falsas de livro de poemas de um tal Pasolini
* da cabeça do morto escorriam sílabas enviadas por celular
* membros do morto foram encontrados em todos os cômodos / alguns versos caíram em área do supermercado ao lado onde foram confundidos com  tíquetes de estacionamento
* o estado da vítima não permitiu apuração do sexo /usava roupas de homem e de mulher
* muito vermelho o poema morto
* análise das poucas linhas encontradas permite classificá-lo como “anarcoide poético com desvios líricos”
* não era pacifista nem violento / sua palavra arma de alta imprecisão



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Baía das lobas marinhas
















derrame
de dedos e remos
ínsulas
istmos
línguas
aranhas em pelos pubianos
erguem em máxima intensidade
voo inflável
de nau oblonga
longo calado
tatuado no casco
“Ernestina, amor eterno”
desabam
todas as velas no oceano
esparramado na cama
azul
afundam lençóis
bordados com nomes extintos

Vênus insaciável
pernas abertas
a uma frota inteira


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Extermínio

Obra da artista islandesa Gudrun Vera Hjartardottir

























turnos
manhã
tarde
noite
ocupados

lotação
esgotada

futuro
no esgoto
se não sobra
uma gota de tempo
pra nada


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Manada em branco

Trabalho do artista francês Jean Luc Cornec



















Manada
imóvel
caixas postais
ocupadas
todas as linhas
desativados
todos os ramais
toda ligação
incompleta
palavras em queda
não atravessam
o vácuo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Dissimulatio artis

Rony Bellinho

























infame pulga salta
de poema de John Donne
para pele opalina
sob a luz ocre de velho  vitral
o sol queima
todos os pecados da carne

de joelhos
com fervor desconhecido
meus olhos crescem
em direção ao ponto móvel
negro
a dançar diabólico
impossível
nas encostas de duas colinas
cônicas
que escapam
por brecha na blusa bege

sou todo devoção

sábado, 22 de novembro de 2014

Sucata




O que sobra
em pilhas
pátio afora
oxida palavras gastas.

A vida
fora de uso
vira entulho.

Tudo ilusão
de futuro;
o campo de escombros
alastra-se além muros,
esterco e monturo
convertem ruas
em rios de chorume.

No lixão da cidade
peste e passado se igualam.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A mulher ao largo




















Um nome
não sai das sílabas
de frases vazias
em linguagem morta;
invasor compulsivo
de tantas palavras
na escuridão da boca
de tanta ausência torta.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Manhã maquínica

















Manhã maquínica,
maquiada de nuvens
a face azul do céu
encerado de beleza
sobre a cabeça dos androides.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Os fracos esperam a vez




























Secreto acordo com o inevitável
habilita passagem às esponjas
e estrias do teu corpo em oferta.

O celular dispara sem tomar fôlego
enquanto finges que gozas. Felicidade,
perfume vagabundo em tuas coxas.

Um toque na campainha da quitinete
poda a paixão luminescente. Outro cliente
chega fora do fuso horário marcado.

Saio com míseros trocados escada afora.
Depois que for embora, não direi a ninguém
o nome do rosto tatuado na omoplata.

Toda terça torço para encontrar lugar no leito.
Sou o primeiro a chegar. Precaução inútil;
tenho sempre que esperar clientes VIP.

Se não posso demovê-la do vórtex devasso,
devasto a minha vida em servidão voluntária:
sou o cliente nº 1, vassalo e vil por opção.

Galés - versão 2014


sábado, 15 de novembro de 2014

Palavra inalcançável

























Sempre habitei
margens de erro,
desabilitado
a propriedades de cura.
A poesia, portanto,
nunca foi um caminho,
mas o único destino
impossível.