domingo, 18 de agosto de 2013

Golpe da memória



























Soletrar um nome
na ponta de outra língua,
depois colá-lo
em vasta e vazia cratera
do coração de celofane;
a pulsação do marca-passo
em noite de lua de areia.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Revoo

Remedios Varo (1908-1963)


























Triste Tebas,
vasto o céu
devastado.

A peste,
amputado
o curso
das palavras,
em traje de gala
chama para dançar
insana
a voz de Jocasta.

Olhar de Édipo:
esfinge,
esfíncter
e destino,
tudo da mesma laia.

Falta de ar



















toda
rês
res
pirada
presa
em bolsa
de ar
só as hienas
de níquel
ao sol
intocáveis

não ser vil
rês
que não serve
para nada
só carne em covil
prontinha
para código de barras


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Última incursão à carne




pula-pula a marafona sobre o abdômen do morto, o peso desproporcional afunda pouco a pouco a dissoluta carne arqueada, voluta ulcerada de volta ao útero, cornija para escoar lágrimas fingidas. pisa-pisa a face teriomórfica entre touro e carneiro, vértebras partidas, a flácida barriga de estrias esverdeadas aberta aos domingos para expiação pública e taxonomia, quase dobrado agora folha rasurada, bolas de pelo como amuletos macabros rolam ladeira abaixo pela goela do falso messias que proclamava proezas sexuais - pura fantasia para viúvas de homens mortos de tédio. agora o fêmur quase atravessando a garganta. outras carnes mofadas prensaram as letras com as quais esquiara esperança e sordidez, também atiraram insultos e serpentes em seu peito, dos pulmões sem pneuma vazavam vigílias alucinógenas e lamparinas para os dias de letras turvas. os poemas em bacias entulhadas de sal e olhos-vigias perdiam a caligrafia de infâmias. forjaram suas amantes uma cruz para a morte, mas todos sabem que o rei apócrifo enforcou-se de palavras, as frases enroscaram-se arame farpado no pescoço roído por prazeres de aluguel, sílabas de pernas abertas esfregavam esponjas e xanas em sua face esquerda enquanto a direita era todo o cenário do deserto.  para sempre lançado do lado de lá das palavras. ainda que não existam deuses e não tenha alcançado o inferno, o morto não pode ser enterrado. quem um dia o calvário de um nome, nunca desnomeado.


domingo, 11 de agosto de 2013

Dia em branco

Kasimir Malevitch


























todos os passos
traziam
chapéu panamá e a sombra de uma cicatriz
movendo-se do plano A
para dissolver-se
no  vaivém de borracha
em letras anônimas;
salvo-me como puder,
plano B inclinado
até o fundo do poço

rasura em dobra
desbordava
de manhã tão vasta
que nela não cabia
pequeno gesto
na entrada do trem-fantasma

mas a rasura
incita o exercício
de outra escrita,
a poesia é a mãe de todas as ausências



sábado, 10 de agosto de 2013

Décima-terceira incursão à carne

Goya


Não há, depois da fermentação dos órgãos, da sutura dos tecidos, ponto de restauração de ossos e certezas. Nenhum fio materno virá redimir, ao amparar o corpo extinto, anos de barbárie no pântano. Vê: há certa beleza geométrica na floração de máculas espalhadas como semáforos por uma superfície já inavegável. E os olhos? Observe as cenas submersas pulsando atrás das pálpebras inchadas: mãe abandonada em plantões hospitalares, pano, balde e rodo em sanitários infestados de pestilência; mãe de noites estendidas em pânico quando o filho conduzia uma gangue de hirsutos em farrapos pelas ruas do bairro apóstata; mãe em apneia escrita em livro de ocorrências paranormais: peixes multiplicados por asfixia na cortina d’água, x9 ressuscitado para clandestina execução sumária, putas inscritas em liturgia pornoangelical, cegos que se amplificaram em câncer e surdez. Janelas fechadas à passagem de anódino cortejo, portas trancadas a pavor pleno, crianças nos cômodos mais fundos. Vê: eis o morto em ângulo sólido. Não, não é o dedo médio que lavra insultos a sacerdotes-eunucos. Algo se monumentaliza por causa da pressão hidrostática causada por ingurgitamento venoso, o pau insurgente de Prometu, a curvatura do corpo cavernoso atira mitos, nódulos e coágulos contra a eternidade. Príapo de volta aos braços maternos.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Hannah Arendt




Assisti ao filme Hannah Arendt. Lembrei-me de minha mãe negra espancada até à morte com fio de arame farpado no morro do Salgueiro. Não acredito que o horror possua rosto, natureza ou conteúdo, só vítimas. Me assusto: localizamos seus corpos, mas quanto de horror não nos escapa; suas irrealizações, suas falhas, seus planos frustrados, seus limites operacionais, lógicos, humanos? Sobre o sequestro de Adolf Eichmann, o prato sobre o qual se degusta a vingança pelo holocausto, considero que os aliados triunfantes, com mais êxito, sequestraram métodos, ideias, organização e mentes da máquina de purificação nazista, incorporaram-nos a uma estranha noção de democracia que permite exterminar metade do planeta a fim de criar o melhor dos mundos para os ricos e poderosos, os novos arianos. No metrô, de volta pra casa, fiquei pensando nos jovens índios que se matam em plena invisibilidade. O mal, não obstante, permanece intocável: milhões de judeus exterminados, milhões de negros exterminados, milhões de índios exterminados.  Quantos milhões a mais?


domingo, 4 de agosto de 2013

Potlatch



















O verbo dar,
em sua predicação completa,
exige
dois objetos.

Eu dei
dez toneladas de afeto,
dei
tudo o que podia,
dei
o melhor de mim,
mesmo sabendo que você
sempre
olhava para o outro lado.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Grau máximo




























Vi
as vértebras
descerem
o dorso
por uma brecha
acesa
na blusa de cambraia
enquanto braços
inocentemente
morenos
elevavam-se
em prece
para acalmar
espíritos
revoltos em cabelos
ruivos e crespos,
vi com os meus impróprios olhos
que desde então
nunca mais foram os mesmos.


Ponto cego

























Tudo
ao redor
ao largo
ficou
empoçado
por pressa
desídia
pura insolência
de não se virar
a página
ou o pescoço
em inflexível obediência
à simetria
em que se afogam
palavras
em passo de ganso.




domingo, 21 de julho de 2013

Haicai em gomos






Doce tangerina,

alivia a alma e a língua

solto sol em sumo.