quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Anarquipélago à vista




Eis a capa do meu primeiro livro de poesia em produção pela Ibis Libris. Acredito que seja possível lançá-lo em outubro.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Letras mortas

"Ciudad invisible", obra da pintora  argentina Eva Manzella



























Ele, após a milésima m,
ouvia, ao pé da letra,
metáforas rancorosas;
ela, cheia de efes e erres,
punha os pingos nos is.
Tudo porque na hora h
deu um nó no sexo,
corpos zerados na lona.

No dia D,
antes que se fechasse o zíper
da lua de mel,
a última gutural
na curva em U.

Sobraram dois dedos
de tequila
e um livro de Juan Gelman
aberto em v.




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Três haicais



Leve leque azul,
vaivém de asa de bambu
no vento seco.







C no céu, a Lua,
curva letra do alfabeto
entre n estrelas.


Paul Klee



Fuga de formigas
por fendas em trilhas ao sol,
louco incendiário.


domingo, 15 de setembro de 2013

Do outro lado da cidade - lado b



























vinha
a beleza transbordando
de blusa poá
rosa e branca
todas as bolinhas
balançavam
no riso roxo
tão estonteante alegria
que as veias
explodiam
travas e trincos
a cera dos corpos
logo se derretia
na chama acobreada
de um abraço
9,5 na escala Ritcher
capaz de fazer picadinho
de todas reservas e reticências
ainda que se ouvisse bem alto
a buzina de um automóvel
ao luar
à espera de alguém


sábado, 14 de setembro de 2013

Desentenditempo

Imagem: O Livro de Horas de D. Manuel, século XVI



























antissolfantasia
os raios-riachos-diamantes
ardormência
em veias-venenos-vênus
ateiam
fósforofogofátuo
em velhas mofotografias 3x4
pútridos ponteiros
cavalgam em lava riscos-rugas
no papel vulcânico
os verdevermes maquínicos ressecam mãos
de incônscio Pilatos


Do outro lado da cidade

























observa
som, sombra de asas
na janela
um talvez pássaro
ousasse
entrada
até o jarro chinês
no canto da sala
e pousasse
na orquídea de plástico
rosa dégradé
à semelhança de loura
languidez
na almofada
de listras diagonais
rodeada de rendas
sonolência
solidão

mas são apenas sombras
aleatórias
em disfarce de pássaros

o voo continua intacto
no céu do sofá


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Lua de Lara














      


        Para Lara Amaral

Algo na noite de gala
rasga
gole a gole
águas em papel pautado
mineral
até o fim da última linha
engasgada
regurgitar o indizível.

Recolher a âncora
cravada
na garganta,
acender o céu em pedacinhos de papel,
colar rasuras e rascunhos
nas pálpebras,
atirar todas as facas.


Estado do Estácio

Escadaria do Morro de São Carlos, na década de 1930 , fotografada por Augusto Malta.



















Passava Damião Experiência
com sacola cheia de remendos
catando sons e ruídos no chão.
Da Adega dos Amigos e Lordes do Estácio
víamos os seus cabelos aos gritos.
Havia conhaque bem vagabundo,
e a vida era besta
apesar da lua ausente.
Heitor dos Prazeres, Ismael Silva,
Moreira da Silva, Luiz Melodia e tantos outros
dançavam no meio do Largo do Estácio.

Com as pernas calibradas
de álcool em dose insuficiente
para aguentar o rojão,
eu subiria a Machado Coelho,
viraria à direita,
direto aos peitos
das meninas do Mangue.
Depois de dez cruzeiros
e cinco minutos,
mulher de bobes no cabelo
e fotonovela nas mãos,
com pernas abertas de má vontade,
resmungaria amorosamente
“Anda logo moleque!
Você não tem grana pra exclusividade”.

Sairia manchada
minha fama de bamba
rumo à rua Maia Lacerda.
Mas o Estácio,
o velho e amado Estácio
logo logo me salvaria:
“cortar o cabelo
que a noite soberana
vai trazer a lua do samba”.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Jogo de ombro


























Você, de tomara que caia,
me deu um tombo.


domingo, 8 de setembro de 2013

Haicai






Seis figos na mesa,

fúria em fatias na travessa,


quatro mãos acesas.


sábado, 7 de setembro de 2013

Haicai




Areia e urânio

nas águas de Fukushima.

Peixes em UTI.