sábado, 20 de julho de 2013

O assassinato do manequim



















Não um poema
segundo rigorosa investigação,
apenas simples etiqueta
ao lado do corpo,
remarcação de peças,
preços,
desapreço.

Estátuas sangraram lágrimas
contábeis:
os crocodilos atrás das vitrines
exibiram falhas do olfato,
deixaram escapar das pedras
no asfalto
a revista diária
aos cacos de vidas moídas
em longas jornadas
sorriso e padrão classe A
afora,
vendedoras
lobotomizadas
em overdose de rivotril,
os nervos 
necrosados
quilômetros à frente
da placa
SEM FUTURO.

Mas há quem prefira
flores e preces
para o manequim morto.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto




A inversão do olhar em Isaías Caminha

1 - Introdução

      A crítica tem sido unânime em considerar Recordações do escrivão Isaías Caminha um romance destituído de equilíbrio, opinião corroborada pelo próprio Lima Barreto em carta a Gonzaga Duque:

          um  livro desigual, propositalmente  mal  feito, brutal, por  vezes, mas
          sincero  sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar (...)
          hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples
          fatos não dizem, segundo o nosso Taine (apud Barbosa, 1981, p. 162).

     No entanto, a compreensão desse desequilíbrio deliberado ocorre de modo diverso no autor e na crítica. Aquele, segundo os seus próprios termos, vê a literatura como a possibilidade de desalienação na formação da consciência, tomando-a claramente não apenas como complemento ao real, ornamento, constatação de sua lacunosa percepção, mas espaço de discussão dos principais problemas do tempo e de construção da linguagem capaz de expressá-los. Já a preocupação desta é de outra ordem, exclusivamente atenta à organicidade da obra literária, posição expressa com clareza na objeção fundamental levantada por José Veríssimo:

          Há  nele, porém, um defeito grave, julgo-o  ao  menos, para  o  qual
          chamo a sua atenção, o seu excessivo personalismo, pessoalíssimo, e,
          o que é pior, sente demais que o é (apud Barbosa, 1981, p. 179).

      Paradoxalmente, são essas duas apreensões – o desequilíbrio e o personalismo – que nos levam a tentar decifrar o universo limabarretiano.
    O duplo diagnóstico do mal que enfraquece o livro reduz-se, na verdade, a apenas um: o personalismo, causa dos desequilíbrios ao longo da obra do autor. A sua tradução literária dá-se sob um olhar que conforma os objetos à natureza de seus desejos, imprimindo ao mundo uma força centrípeta, pois os acontecimentos são puxados por uma vontade que move o olhar sobre o real e conduz o sujeito à impotência ao não conseguir a plena realização da dupla perspectiva romântica: a certeza de predestinação, de julgar-se superiormente dotado, e a cobrança de uma estrutura social perfeita.
   O percurso do protagonista situa-se no centro da retina, constituindo-se o olhar em metáfora da apreensão do real. Sua irrupção no romance Recordações do escrivão Isaías Caminha surge impregnada com uma luz intensa voltada para a topologia social onde se fraciona e fratura a humanidade. Em Lima Barreto, como veremos mais adiante, esse balé classificatório, essa inserção na hierarquia social, apresenta uma complexidade que salta aos olhos, principalmente por colocar em discussão o espaço dos sem-lugar, dos excluídos, da margem. Sua obra padecerá dessa antinomia: é literatura de fora, porque incorpora pequena parte do universo dos sem-lugar, situando-o na proximidade de crônica social, ensaio e jornalismo: e é uma literatura de dentro, por existir no interior de relações linguísticas trabalhadas com fins estéticos; pouco importam os aspectos factuais, históricos e sociais ao processo narrativo, se não estiverem submetidos ao processo ficcional.
    O percurso de Isaías Caminha é, inicialmente, determinado por um olhar para cima, voltado para um plano superior que remete à concepção extremamente idealizada da existência, ingênua o suficiente para acreditar no mérito individual como moeda de trânsito rumo à ascensão social. Tal olhar corresponde a um estado pleno, repleto de humanidade, natural (na acepção rousseauniana), sem a perversão operada pelos mecanismos de cooptação ou rejeição social. Um céu ao alcance do talento é o fio condutor do jovem interiorano esperançoso ao ventre feroz da metrópole. Deslocar-se, assim,  só se justifica, obviamente, pela crença absoluta na qualidade do movimento que se dá por excesso, por transbordamento das capacidades individuais, cujo afloramento e a consequente consciência provocaram a sua expulsão do meio provinciano, onde se tornara um sem-lugar. 
    A mudança de locus converte olhar para cima em olhar para baixo. Esmagado ao peso da perversa engenharia social urbana, Isaías nega, gradativamente, a qualidade de sua apreensão crítica ao ganhar um lugar na redação do jornal onde ocupará as modestas funções de contínuo. O sujeito perde a consciência de si, transforma-se em objeto, muda o foco de sua visão: se contempla a realidade, é sob o prisma do menos, da subtração, da falta, espaço próprio ao recalque e ao rancor. O ponto máximo de sua dominação consiste em ver o mundo pelos olhos de. Degradado ao máximo, perde a consciência, desconstrói o universo de referências, pensamentos e ideais, assumindo a leitura feita pela ordem dominante como algo natural.
    Claro está que tal classificação visa tão-somente a entender o percurso de Isaías Caminha, pois o olhar é obrigado a conformar-se ao real, ao incessante movimento, ao devir, assumindo toda a sua complexidade.
    O protagonista é capaz de manter certa margem de independência, mesmo sob dominação, por isso esse olhar para baixo está eivado de contradições. Quando o diretor do jornal, Ricardo Loberant (trata-se, na realidade, de Edmundo Bittencourt, dono do jornal “Correio da Manhã”, modelo de “O Globo” no romance), finalmente passa a enxergá-lo, Isaías Caminha denota uma arguta recepção, atento à sua anterior inexistência, à sua não visibilidade. Constata, com tristeza, que a classe dominante é incapaz de enxergar a humanidade, a sensibilidade e a inteligência dos oprimidos. Aliás, é o olhar dominante que perverte o universo dos indivíduos em massa, soldando múltiplas existências no todo uniforme e anódino que envolve termos como "povo", "multidão", "população" e correlatos. A classe dominante lê o mundo como a sua casa, o olhar dela é, portanto, domesticador, tendendo a transformar todos numa abstração amorfa, numa inarticulação humana. Isaías Caminha não é ninguém. Ninguém o vê. Sua humanidade não existe, pois dependendo da visão e esta, por sua vez, necessitando de uma posição social, não pode ser visto.
    Incorporado à redação do jornal como um "igual", Isaías Caminha passa a viver, na parte final da narrativa, sob o influxo do "intimismo à sombra do poder", categoria lukacsiana retomada por Carlos Nelson Coutinho (1974, p. 4). Tal conceituação revela o mecanismo de cooptação dos intelectuais, uma das mais fortes denúncias contidas no romance. O processo de dominação das inteligências consiste em colocá-las a serviço do olhar dominante ou, na pior das hipóteses, neutralizá-las com cargos ou favores. Isso é possível pela presença, ainda seguindo as formulações arquitetadas no ensaio citado, da "via prussiana" no desenvolvimento do capitalismo brasileiro, caminho caracterizado pela conciliação com o atraso, evidentemente representado pela especificidade da formação econômica brasileira: sistema de exploração colonial, sustentado por um modo de produção escravista, forma particular do capitalismo como um sistema universal.
    Entre as particularidades da nossa formação destaca-se a figura do agregado. Sua importância reside no lugar que ocupa na estrutura social, uma posição intermediária entre o elemento servil e o trabalhador assalariado. Sua existência assinala a presença de uma categoria sem uma função precisa no interior da organização produtiva. A falta de precisão implica no engendramento de uma relação de dependência paternalista, capaz de dar corpo e vida a um contingente de seres divididos em tarefas correlatas: moleques de recados, capangas, comensais, domésticos, etc., todos, no fundo, seres deslocados, intrusos, destituídos de um espaço próprio, misto de animal doméstico, trabalhador de mil e uma utilidades e parente remoto.
    Quando é apontada a importância concedida na obra limabarretiana à figura excêntrica, torna-se necessário examinar a excentricidade não apenas na sua significação intrinsecamente literária, mas investigar que tipo de relações sociais expressa. A excentricidade, mais do que um traço de herói problemático, parece recobrir um universo coletivo. À falta de formas consistentes e eficazes de reversão da situação em que se encontram, os excluídos tendem a assinalar uma resistência desordenada e caótica através da construção de uma diferença que se faz no vazio, visando a quebrar o ordenamento burguês do mundo no terreno da individualidade.
    Tanto o excêntrico quanto o agregado constituem-se (isso quando não se fundem) em elementos marginais, cuja lateralidade expõe tensões entre mundos distintos. Isaías Caminha, tão deslocado quanto Policarpo Quaresma, é o romance do fracasso exemplar da meritocracia, a narrativa do apagamento de qualquer mudança de rumo. O mito da ascensão social por meio da arte desmonta-se com a transformação do êxito em conformismo e abdicação do vigor do caminho original.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Desencobrimento



























Gravar na eternidade
a graça
com que se desfaz
à luz de negligência e lentidão extremas
a linha reta
da alça direita do teu sutiã
de nuvens e cachos de uva pubescente
por trás dos quais
róseas aréolas amanhecem
o apocalipse.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pantanal



















A capivara nada
cabeça fora d’água
na mira do pior predador.
Do tiro ao tempero do prato
um átimo.


terça-feira, 16 de julho de 2013

III Festa Literária do Campus Humaitá - 2013 - Colégio Pedro II


PROGRAMAÇÃO

FLUH 2013 – Há poesia
Homenageados: Vinicius de Moraes e Graciliano Ramos
Dia 15/08 – quinta-feira
Abertura – 10:30 – 11:00 – Apresentação da diretora Glória Vianna
Mesa 1 – 11:15 às 12:30 – Vinicius de Moraes, um poeta dentro da vida
Mesa 2 -14:30 às 16:00 – Olhares sobre Graciliano
Glória Vianna e equipes de História e Geografia
Mesa 3 – 18:15 às 20:00 – Poesia etc.
Dia 16/08 – sexta-feira
Mesa 1 – 8:30 às 10:00 – Vinicius e Graciliano para jovens leitores
Equipe de Português
Mesa 2 – 10:30 às 12:00 – A vida toda prosa
Mesa 3 – 14:30 às 16:00 - O desafio do público
Mesa 4 -16:30 às 18:00 – Entre prosa e poesia
Mesa 5 – 18:15 às 20:00 – Geração mimeógrafo: Homenagem a Paco Cac.
Eduardo Tornaghi e José Antônio Cavalcanti
Sessão de leitura interativa dirigida por Mariozinho Telles

sábado, 13 de julho de 2013

Vazante























Estela abriu a porta
do forno,
o bolo dentro
queimado.

Feliz aniversário,
Estela,
desejaram-lhe
quatro cadeiras
em branco.

Sim,
Estela,
os guardanapos
não são suficientes.




quinta-feira, 11 de julho de 2013

À beira-luz



















Quando caminhávamos
juntos
sem pisar em culpas
e a força do sol
queimava costas e nucas
e o mar
era um rebanho líquido
acalentando
barcos sem rumo
e o vento jogava os seus  cabelos
um palmo acima dos ombros
e as pedras,
sim as pedras diziam
infâmias à nossa deriva,
e parecia que talvez
nuvens listassem o céu
mais tarde
para que escrevêssemos
pequenas frases sem ritmo,
o fio da conversa
era o fulgor da alegria
que escorria como girafa cega
no seu sorriso tão solto
que inundava o mar.



terça-feira, 9 de julho de 2013

Rue de la Vieille Lanterne


























Um poema esgotou-se.
Pende de corda esticada em grade parisiense
o Cristo no Horto das Oliveiras.

Sujas de abismos
as fibras enroscadas em antigas
dissonâncias,
a corda, carinhosa
oferta da Quimera,
repousa agora
entre mirtos e sicômoros.

Algo vaza da cisterna do corpo
del desdichado
para lavar a rua deserta.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Três poemas em Mallarmargens

Picasso


Três rios de águas impuras contaminam Mallarmargens. Mais três poemas em Mallarmargens. Leia-os no link abaixo;

http://www.mallarmargens.com/2013/07/tres-poemas-de-jose-antonio-cavalcanti.html

A dama de cinzas

Klimt























Um círculo ao redor de fonte quase sem água.

Eis a morte.

Caninos de liquens de outras praias,
músculos e dentes de letras mortas.

Eis a morte atravessando a rua
com perfume de calma tempestade.

Vem com a jaqueta de Torquato Neto,
a camisa amarela de Maiakovski
manchada de tinta do jornal de ontem
à altura das axilas,
fiel ao seu estilo
a morte não se depila.
Olhos de Anne Sexton,
cabelos de Sylvia Plath,
vem num velho vestido
de Ana Cristina César.

Burocrata sonolenta
com pose de czarina,
eis a morte.

Traz brioches e cocaína,
a iguaria mais fina
para um banquete familiar
sobre as manchas vermelhas
de toalha xadrez.

Eis a morte.

Retira de vasta sacola
o chapéu de Sá-Carneiro,
os sapatos ainda molhados de Celan
há pouco pescados no rio.

Eis a morte na esquina,
seios de cinema,
pernas de tirar o fôlego
e uma urna de ossos.

Leva os olhos de Cesare Pavese,
lava o rosto de Serguei Essenin,
larga desarrumadas as malas
de Florbela Espanca e Virginia Woolf
em cima de um bueiro.

Eis a morte.

Traz uma garrafa de tequila
pela metade.
Coloca óculos rayban,
lê,
com falso interesse,
meu último poema.
Dá muita risada,
fala para as sombras nas paredes:
“Quanta bobagem!”

Eis a morte.

Traz tesoura
de Antero de Quental.
Recorta meticulosamente anúncio
de caderno de classificados,
guarda-o com vulgaridade obscena
sob o soutien.

Eis a morte.

Atravessa a rua.
Vira o rosto de delicado arroxeado
 mais uma vez
para arremessar-me um beijo
do outro lado da calçada.

Eis a morte.


Beco





















Todo beco
é um barco
sem ondas.

Preso
irremediavelmente
à ancora,
o coração de nuvens.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Poemas do livro perdido - IX





















*

O caminho da experiência
não é mais a experiência do caminho
não há paradas
para trocas de bateria
ou mergulho
não há alívio
integral
a queda livre
no abismo
nada nos salva
da batida
acelerados
os caminhos
agora
(as margens migraram)
a fruição
entrega completa
a impérios
imperativos kantianos
teomercadologico
livro de exigências
aberto
em ritmo de insuportável
velo/voracidade
Ovídio, a experiência
não solda mais
o tempo (tempus edax rerum)  
perdida a cola
de nosso rosto


*