sexta-feira, 10 de maio de 2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Quarta incursão à carne

Egon Schiele




Sou Judas e vim cravar punhal babilônio nos olhos da harpia tatuada em tuas costas, serviçal de Gomorra, para que não vejas o tremor germinando no solo fértil da solidão dos que traem. Pertenço à legião daqueles de que nada sai sem o sacrifício de sangue e inocência. Sou da tribo dos possessos do espírito e devassos da carne que cruzam o deserto dos prédios para espalhar perversões em salas de cinema. Vim para devastar teu esfíncter banhado em azeite e lágrimas. Vim para calcinar o pântano maldito do teu clitóris, falso espelho do meu gládio, logo abaixo do terceiro círculo do inferno. Vim para enfiar em tua vulva uma carga de mágoas e rosas, pulsante navio transportando adubos, moedas, deuses, sucatas e sonhos. Para ti, serva libertina, o pau vibra qual um cometa ao tocar um ponto qualquer no universo após um século em órbita. Para ti, voz melosa ao telefone em falsas promessas, esta matilha de crimes implorando socorro.


Terceira incursão à carne

Egon Schiele



Entra-se por qualquer porta escancarada, penumbra fora de perímetro. Às vezes se volta de mãos vazias e com a alma morta. Sempre se alcança, no entanto, ao se erguer os pés além da entrada, mais que porta, nimbo fora de qualquer teologia, bunker de tijolos aveludados isolado no tempo.  Por que maciez, champagne e seda? Por que tantos espelhos e excesso de vermelho nas cortinas? E esse olhar falsificando atração, memória e gula? E essa indumentária incomum sobre a qual repousam aparelhos mecânicos e pílulas para performances guinnessianas? E a boca, sim, a boca, a boca esplêndida e viciosa, a boca, atelier da carne, centro de efeitos efêmeros que escapam ao provisório, aos prazeres-zumbis que se recusam à morte mesmo confinados a poucos segundos. A boca que já não diz por que inventa, a boca esponjosa cuja cegueira arremessa urgência nas paredes. 


domingo, 5 de maio de 2013

Em direção contrária





















prestar atenção
ao excesso
não para podá-lo
mas ampliá-lo
até o limite
insuportável
do palco
onde ondas
desabam
círculos
em debandada

espreitar
o que se acumula
como pus
nas palavras
extremas
espremê-las
em linhas
no sentido anti-horário
até não mais
alcançá-las


Querem que eu dance





Querem que eu dance
                                         mas me tranco
                                                  me fecho em copas
                                                  me guardo numa estufa de granadas
                          querem que engula a pílula de letargia
                                e me abra à maravilha de milagres
                      mas estou preso aos meus mortos
                        não comungo nem resmungo
                                vivo nos subterrâneos abaixo do ócio
                                         tecido por meus músculos
                                         bordado na minha carne
                            querem que cante mas desafino
                                         é preciso meu amor
                                         é preciso desaprumar
                                 este ar sempre me deixou desarvorado
                                                                   cataléptico
                                                                                       encafifado
                           califa dos guetos da Baixada Fluminense
                                                                                        neste mar anônimo
                                                     vejo as caravelas marcadas do jogo
Senhores versus Servos
                                               homens e estrume
                          sob as botas do mandarim dos latifúndios
                                                                             sei do cerco
                                                                                 quase-louco morto-quase
                                        a raposa astuta sempre impiedosa
                                        a truta divina entregue a dentes gananciosos
                                        a triste dama testemunha tímida e passiva
                                                           sou o cérebro eletrocutado
                                               sem raciocínios circulares
                                minhas mãos constroem o mundo
                                          mas já não estou ligando
                                                                                   ligado
                                                                                   muito obrigado
                                            hoje é um bom dia para se ir a Búzios
                                            porém o ar é pesado
                                                                     tão e tanto
                                                                            que os homens andam arqueados
                                  ao peso de vozes crescendo ao longe
                                  ao peso de vozes crescendo ao longe
                                  ao peso de vozes crescendo ao longe

                                                                                                     18.10.76


Segunda incursão à carne

Egon Schiele




O amor talvez fugisse ao se abrir um guarda-chuva enquanto a cabeça, virada à esquerda,  pensava em travessias. O amor faria bater artérias, portas e janelas, lançando-as do batente ao deserto? Faria cessar a névoa do existir às cegas, entronizando no vácuo uma claridade talvez insuportável, brilho paralisante em frestas pelas quais o vento invadia a câmara mortuária onde os sonhos? Se falhos e incompletos, se lacunosos e obsoletos, como a tentativa de domínio sobre natureza diversa da nossa ou sobre aqueles que brotam de nossa urgência e abandono? Onde a possibilidade de circular entre vultos que nos escapam a tardes ensolaradas, lábios que recuam ao primeiro sinal de tangência? O arrepio, no entanto, levantava suspeitas sobre o incontrolável movimento da pele: sístole e diástole, narinas dilatadas, a pressão sanguínea em alta. Impossível saber o que habita o outro lado, apenas mergulho kamikaze como impulso.


sábado, 4 de maio de 2013

Primeira incursão à carne


"Mulher Caída", por Egon Schiele


Veio a névoa, densa neblina obliterando formas. Teu rosto ainda não existia no retrato, tua voz dormia cantatas em dias de chuva, e o desejo sequer latejava remotíssimo sabor futuro. Minha pele encerada por cerdas ásperas de nostalgia, pergaminho em caminho de rugas, solo intocado dos passos que um dia curvos. Tempo esvurmando minutos, grinaldando de grisalho pelos, cabelos, memórias. As palavras vieram depois, filtradas por máquinas de sucção de impurezas e excessos sintáticos. Os filtros eram falhos como as letras do manual de instruções. Uma vegetação luxuriosa saltava do coração da noite âmbar e ambivalente. Incenso de vigília e tempestade exalava-se em espera. Corria um rio invisível entre os móveis ofertados aos cupins na sala, ouvia-se o ritmo das corredeiras e quedas d'água saltando do pulso. Tudo um fluxo, tudo um continuum, mas nada apontava a possibilidade do legível. Nada de limpidez, toda geometria desmanchava-se em sombras no horizonte a anos-luz de distância. Tudo se tingia de pardo-obnubilante. Linhas voláteis desenhavam um chão de nuvens. Fugidios e movediços, os objetos afirmavam-se como um não-é-para-mim, algo latente num sempre-além, fora das circunstâncias, da vida e suas adjacências entrevistas como relâmpagos apenas em pesadelos. Aéreas fotomontagens as pessoas, nenhuma ascese, nenhum princípio de transcendência ou aproximação, redomas metafísicas. Longe, sempre longe o campo do real objetivo, a latência de formas vivas, a irrupção de sujeitos. Assim, caminhar e tateio operavam sinonímia, entendimento erigia-se em obscuridade, existir era um território de avessos. O trajeto vertical descendente radicalizava perdas e recusas. Mas algo atravessou a névoa, uma instalação desviou o sangue das entranhas para uma baía de águas vivas. Teu corpo, teu corpo, teu corpo, por isso todas as heresias em cântico, todas as blasfêmias abertas em chagas na carne viva. A tua voz do outro lado do impossível explodia o universo. 


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Fuga da cidade morta

Francis Picabia

























Aglaia
chegou cedo
à estação
malas na plataforma
empoeirada
a cidadezinha
no norte de Minas
expulsava
as bruxas pelos telhados
levaria
Delta de Vênus
de Anaïs Nin
a prata dos falsos banhistas
buscando anéis
no fundo do córrego
carregaria o pudor
em sacos de lixo
para outra geografia

cadeados, guardas e códigos
em janelas espiãs  
a vida pastosa arava o intragável
ao abrigo
de párocos e cochichos
a flor oculta
do desejo
revelara o nome
antes da aurora

a cidade das mulheres perdidas
500 km ao sul
a salvaria
de hóstias selvagens




Espera em branco




























acumulam-se camadas
de amor em lacunas
no tiramisù

vejo
lesmas no pão de ló
ácaros na colher
e olhos mais amargos
do que o chocolate

alarme
quase vazando
a calda





Infância com spray de pimenta nos olhos

Escultura de Pierre Matter



















treslendo-me
ontem
se hoje
um poema
não
meninos de rua
mas ultra
bazuca
na outra banda
da rua
miraria fixo
os silicones da lua
que se partiriam
em lâminas
caindo nas crateras
homoheteroetc
de nossa
missa campal
manada pasto indiferença
fones montados em bikes
limando as unhas
com o umbigo
fútilvôlei em areias
moneyvesgas
babélicas
copacabanababescas

crianças em curto-circuito
surtam gambiarras

os vizinhos chamam a polícia


quinta-feira, 2 de maio de 2013

meninos de rua






m  e  n  i  n  o  s     d  e      r  u  a


                                                          a temporada de caça
                                                                    moedas
                                          dispara dos bancos da casa grande
                                                                         na diáspora miúda
                                               neón em caixas engraxate
                                                              corpos exangues à beira-mangue
                                             tilintar de cobres em chão de suástica

                                          pivetes emperram progresso
                                                      esses egressos funabens
                                              funambulescos marionetes imundos
                                                        pássaros sem canto e plumagem
                                          insetos humanos insubmissos
                                                aos inseticidas bom senso e juízo

                                          minúsculos fantasmas famintos
                                                 bem-vindos ao safári às presas infantis
                                             de patuscas patrulhas patrícias
                                                  o alimento-delícia
                                                                    a papa-fina
                                      de papa-defuntos e bichos papões
                                                        corja de corujas sanguessugas
                                   abutres-trituradores de fígados
                                              homens-uniformes sacos de defuntos
                                                                  coliformes auctoritas
                                                               homens-pedras-toneladas
                                                  no câncer da alma

                                               o rigor da lei
                                               a razia da ordem
                                               paz
                                               por aniquilamento
                                               cidade: campo de extermínio


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Texto em Mallarmargens




Chegou ao fim o périplo do texto-que-caminha. Batizado "A loja do outro lado da rua", seus anéis já tinham sido lançados no Face, onde nasceu com pele de postagens. As partes da serpente envenenaram vitrines Mallarmargens. Agora, na revista, a parte final -