Mais um poema em Mallarmargens. Dessa vez rolam os dados e as garras de Faunosfera em http://www.mallarmargens. com/2013/05/faunosfera-por- jose-antonio-cavalcanti.html
sexta-feira, 10 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Quarta incursão à carne
![]() |
| Egon Schiele |
Sou Judas e vim cravar punhal babilônio
nos olhos da harpia tatuada em tuas costas, serviçal de Gomorra, para que não
vejas o tremor germinando no solo fértil da solidão dos que traem. Pertenço à
legião daqueles de que nada sai sem o sacrifício de sangue e inocência. Sou da
tribo dos possessos do espírito e devassos da carne que cruzam o deserto dos
prédios para espalhar perversões em salas de cinema. Vim para devastar teu esfíncter
banhado em azeite e lágrimas. Vim para calcinar o pântano maldito do teu clitóris,
falso espelho do meu gládio, logo abaixo do terceiro círculo do inferno. Vim
para enfiar em tua vulva uma carga de mágoas e rosas, pulsante navio transportando
adubos, moedas, deuses, sucatas e sonhos. Para ti, serva libertina, o pau vibra
qual um cometa ao tocar um ponto qualquer no universo após um século em órbita.
Para ti, voz melosa ao telefone em falsas promessas, esta matilha de crimes
implorando socorro.
Terceira incursão à carne
![]() |
| Egon Schiele |
Entra-se por qualquer porta escancarada,
penumbra fora de perímetro. Às vezes se volta de mãos vazias e com a alma
morta. Sempre se alcança, no entanto, ao se erguer os pés além da entrada, mais
que porta, nimbo fora de qualquer teologia, bunker
de tijolos aveludados isolado no tempo. Por
que maciez, champagne e seda? Por que
tantos espelhos e excesso de vermelho nas cortinas? E esse olhar falsificando
atração, memória e gula? E essa indumentária incomum sobre a qual repousam aparelhos
mecânicos e pílulas para performances guinnessianas? E a boca, sim, a boca, a
boca esplêndida e viciosa, a boca, atelier da carne, centro de efeitos efêmeros
que escapam ao provisório, aos prazeres-zumbis que se recusam à morte mesmo
confinados a poucos segundos. A boca que já não diz por que inventa, a boca
esponjosa cuja cegueira arremessa urgência nas paredes.
domingo, 5 de maio de 2013
Querem que eu dance
Querem que eu dance
mas me
tranco
me fecho em copas
me guardo numa estufa de granadas
querem que engula a pílula de letargia
e me abra à
maravilha de milagres
mas estou preso aos meus mortos
não comungo nem
resmungo
vivo nos
subterrâneos abaixo do ócio
tecido por meus músculos
bordado
na minha carne
querem que cante
mas desafino
é
preciso meu amor
é preciso desaprumar
este ar sempre
me deixou desarvorado
cataléptico
encafifado
califa dos guetos da
Baixada Fluminense
neste mar anônimo
vejo as caravelas marcadas do jogo
Senhores versus Servos
homens
e estrume
sob as botas do
mandarim dos latifúndios
sei do cerco
quase-louco morto-quase
a raposa astuta sempre impiedosa
a truta divina entregue a dentes
gananciosos
a triste dama testemunha tímida e passiva
sou o cérebro eletrocutado
sem
raciocínios circulares
minhas mãos
constroem o mundo
mas já não estou ligando
ligado
muito obrigado
hoje
é um bom dia para se ir a Búzios
porém o ar é pesado
tão e tanto
que os homens andam arqueados
ao peso de
vozes crescendo ao longe
ao peso de
vozes crescendo ao longe
ao peso de
vozes crescendo ao longe
18.10.76
Segunda incursão à carne
![]() |
| Egon Schiele |
O amor talvez fugisse ao se abrir
um guarda-chuva enquanto a cabeça, virada à esquerda, pensava em travessias. O amor faria bater artérias,
portas e janelas, lançando-as do batente ao deserto? Faria cessar a névoa do
existir às cegas, entronizando no vácuo uma claridade talvez insuportável,
brilho paralisante em frestas pelas quais o vento invadia a câmara mortuária
onde os sonhos? Se falhos e incompletos, se lacunosos e obsoletos, como a
tentativa de domínio sobre natureza diversa da nossa ou sobre aqueles que
brotam de nossa urgência e abandono? Onde a possibilidade de circular entre
vultos que nos escapam a tardes ensolaradas, lábios que recuam ao primeiro
sinal de tangência? O arrepio, no entanto, levantava suspeitas sobre o
incontrolável movimento da pele: sístole e diástole, narinas dilatadas, a
pressão sanguínea em alta. Impossível saber o que habita o outro lado, apenas mergulho kamikaze como impulso.
sábado, 4 de maio de 2013
Primeira incursão à carne
![]() |
| "Mulher Caída", por Egon Schiele |
Veio a névoa, densa neblina obliterando formas. Teu rosto ainda não existia no retrato, tua voz dormia cantatas em dias de chuva, e o desejo sequer latejava remotíssimo sabor futuro. Minha pele encerada por cerdas ásperas de nostalgia, pergaminho em caminho de rugas, solo intocado dos passos que um dia curvos. Tempo esvurmando minutos, grinaldando de grisalho pelos, cabelos, memórias. As palavras vieram depois, filtradas por máquinas de sucção de impurezas e excessos sintáticos. Os filtros eram falhos como as letras do manual de instruções. Uma vegetação luxuriosa saltava do coração da noite âmbar e ambivalente. Incenso de vigília e tempestade exalava-se em espera. Corria um rio invisível entre os móveis ofertados aos cupins na sala, ouvia-se o ritmo das corredeiras e quedas d'água saltando do pulso. Tudo um fluxo, tudo um continuum, mas nada apontava a possibilidade do legível. Nada de limpidez, toda geometria desmanchava-se em sombras no horizonte a anos-luz de distância. Tudo se tingia de pardo-obnubilante. Linhas voláteis desenhavam um chão de nuvens. Fugidios e movediços, os objetos afirmavam-se como um não-é-para-mim, algo latente num sempre-além, fora das circunstâncias, da vida e suas adjacências entrevistas como relâmpagos apenas em pesadelos. Aéreas fotomontagens as pessoas, nenhuma ascese, nenhum princípio de transcendência ou aproximação, redomas metafísicas. Longe, sempre longe o campo do real objetivo, a latência de formas vivas, a irrupção de sujeitos. Assim, caminhar e tateio operavam sinonímia, entendimento erigia-se em obscuridade, existir era um território de avessos. O trajeto vertical descendente radicalizava perdas e recusas. Mas algo atravessou a névoa, uma instalação desviou o sangue das entranhas para uma baía de águas vivas. Teu corpo, teu corpo, teu corpo, por isso todas as heresias em cântico, todas as blasfêmias abertas em chagas na carne viva. A tua voz do outro lado do impossível explodia o universo.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Fuga da cidade morta
![]() |
| Francis Picabia |
Aglaia
chegou cedo
à estação
malas na plataforma
empoeirada
a cidadezinha
no norte de Minas
expulsava
as bruxas pelos telhados
levaria
Delta de Vênus
de Anaïs Nin
a prata dos falsos
banhistas
buscando anéis
no fundo do córrego
carregaria o pudor
em sacos de lixo
para outra geografia
cadeados, guardas e
códigos
em janelas espiãs
a vida pastosa arava o intragável
ao abrigo
de párocos e cochichos
a flor oculta
do desejo
revelara o nome
antes da aurora
a cidade das mulheres
perdidas
500 km ao sul
a salvaria
de hóstias selvagens
Infância com spray de pimenta nos olhos
![]() |
| Escultura de Pierre Matter |
treslendo-me
ontem
se hoje
um poema
não
meninos de rua
mas ultra
bazuca
na outra banda
da rua
miraria fixo
os silicones da lua
que se partiriam
em lâminas
caindo nas crateras
homoheteroetc
de nossa
missa campal
manada pasto indiferença
fones montados em bikes
limando as unhas
com o umbigo
fútilvôlei em areias
moneyvesgas
babélicas
copacabanababescas
crianças em
curto-circuito
surtam gambiarras
os vizinhos chamam a
polícia
quinta-feira, 2 de maio de 2013
meninos de rua
m e n i n o s d e r u a
a temporada de caça
moedas
dispara
dos bancos da casa grande
na diáspora miúda
neón
em caixas engraxate
corpos exangues à beira-mangue
tilintar
de cobres em chão de suástica
pivetes
emperram progresso
esses egressos funabens
funambulescos
marionetes imundos
pássaros sem canto e plumagem
insetos humanos insubmissos
aos inseticidas bom senso e juízo
minúsculos
fantasmas famintos
bem-vindos ao safári às presas infantis
de
patuscas patrulhas patrícias
o alimento-delícia
a papa-fina
de
papa-defuntos e bichos papões
corja de corujas sanguessugas
abutres-trituradores
de fígados
homens-uniformes sacos de defuntos
coliformes auctoritas
homens-pedras-toneladas
no câncer da alma
o rigor da
lei
a razia da
ordem
paz
por
aniquilamento
cidade:
campo de extermínio
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Texto em Mallarmargens
Chegou ao fim o périplo do texto-que-caminha. Batizado "A loja do outro lado da rua", seus anéis já tinham sido lançados no Face, onde nasceu com pele de postagens. As partes da serpente envenenaram vitrines Mallarmargens. Agora, na revista, a parte final -
Assinar:
Postagens (Atom)
loading..











