terça-feira, 9 de abril de 2013

Dados viciados em Mallarmargens



Prossegue o périplo do poeta anônimo e da musa-manequim nas páginas da excelente Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Mais um fragmento infiltrado entre outros dados. Confiram em http://www.mallarmargens.com/


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Manequins da desordem

Automaton, trabalho de Kazuhiko Nakamura 

Peguei a  pistola, apontei-a para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos, porém, após tensão provocada por rumor exasperante, o piso emborrachado estremeceu e começou a dobrar-se. Lentamente papéis amarelecidos escaparam de frestas no chão, movimentando-se em círculos até ficarem suspensos no ar. Poemas de todos os tempos flutuavam entre quinquilharias como fantasmas. Pude ver manuscritos em línguas diversas. Fragmentos de Dante, Donne, Bandeira, Cruz e Sousa, Cesário Verde, Emily Dickinson, Vallejo, Drummond, Khlébnikov, Villon, Cecília, Góngora, Wislawa Szymborska, Antíloco, Hölderlin, Arnaut Daniel levitavam entre tantos outros. Os poemas apagaram os relógios. A pequena comerciária agarrou-se ao meu pescoço. Senti seus minúsculos seios latejarem contra o suor do meu peito. Uma pontada abaixo do coração acusou um estranho dispositivo girando bem rápido dentro do meu corpo. Novo fluxo aquoso percorria minhas artérias, numa pressão intensa, como se caravelas incendiassem o rumo de continentes desconhecidos. Vi o meu rosto mover-se no círculo cor de ferrugem ao redor da pupila da pequena vendedora de miudezas. Havia uma tonalidade azulada nas maçãs do rosto, não sei se refletia a excessiva claridade da loja à beira de curto-circuito ou se minha pele buscava novas camadas de nuvens e areia. Guardei a pistola. O proprietário, aterrorizado pelo fenômeno inexplicável e pela certeza da completa falência, esquecera minha ameaça. Eu não tinha mais razões para matá-lo. Só os humanos são assassinos. Eu já assimilara a natureza complexa de minha musa-manequim. Saímos porta afora, livres para a desintegração do universo.




Turbulência

Trabalho de Jarek Kubicki 




Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino. Outro DNA invadia meu organismo. Os braços pareciam imantizados ao dorso da desconhecida, o tórax inflado, as mãos energizadas e mais largas, a pulseira metálica do relógio arrebentou-se no pulso, o corpo mais pesado e cinco centímetros mais alto.  Tudo era estranheza e turbulência. Quando virei a cabeça para ver quem acabava de ultrapassar o limiar da porta, bochechas maiores do que as de Dizzy Gillespie começaram a insultar a pequena escrava. Da garganta apoplética do comerciante saíam fileiras de nomes sujos.  Raspavam a gosma do farto bigode, banhavam-se em perdigotos e cheques sem fundos, batiam no estuque falho do teto  para desabarem na pele tão clara de minha doce desconhecida, em cujas veias eu podia ver pedras e peixes no fundo. A mudez de minha manequim feria a cláusula x  do contrato; na falta de açoites, uma semana sem pagamento, corte de vale-refeição e auxílio-transporte. O troglodita suava em bicas sobre o teclado em que redigia multa e fundamentações. Processo por perdas e danos. Indignação de ópera bufa com a loja transformada na casa da mãe joana. Não vacilei. Peguei a  pistola, apontei para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos. 


domingo, 7 de abril de 2013

Entre nada e o que falta




























Há sempre talvez
em qualquer através
voo vão
cego viés
o outro lado
ao largo
quando
tudo não volta
ao normal
revirada
solta
o óvulo do alvo
na mira
atravessar
às vezes pira
vale o vento
que tira
o pé para dançar
arrancando com raiva
âncoras e raízes
do convés.




sábado, 6 de abril de 2013

Anonimorte





















Quinze pras oito,
nenhum sinal:
o interfone intocado,
o elevador imóvel,
o celular anulado,
a campainha muda.

Ninguém no meu funeral.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Nebulosa




plasma

o poema
impulso
nem verso
nem antiverso
cortam as veias
do pulso

fantasma

palavras
no branco
de linhas simétricas
atravessam
o prisma
para se apagarem
no monturo

ectoplasma

fagocitar
folha
ferida
metade
 metástase
metade
suicida

pseudoplasma


Para: Paco Cac no céu da poesia. De: um poeta sem chão.





Inteiro
na poesia
o sopro
da vida.

Dentes curvos
e carnívoros
sobrevoam
as notas alongadas
do trompetista
de óculos fora de órbita.

Puro arbítrio
arremessá-lo à cisterna mínima,
(sub)traindo ao coro
a noite mais generosa.

O silêncio abre rodas
na memória.

Nossa praia deserta.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Contaminatio





Era o meu paraíso: o reino de notas frias, de cédulas falsas, de mulheres chaves de cadeia, de minha subliteratura. A pequena funcionária tremia agarrada à mochila coalhada de bótons de ícones pop. Ergueu o braço direito para se apoiar no balcão. Vi as pulseiras girarem no punho como se descobrissem combinações do cofre em que se ocultam pulsações assassinas. Um sentimento de júbilo arrastou-me alguns passos em sua direção. Queria lamber a sensação de abandono nas salas circulares de minha musa-manequim presas à língua acostumada à cegueira de comandos, talvez pudesse retirar as agulhas fincadas no pergaminho enrugado do rosto devastado por retroescavadeiras de lares desfeitos, descobrir um mapa submerso de peixes entorpecidos à procura de águas vulcânicas, ricas em nutrientes, coágulos, miomas. Pus as duas mãos sobre o material sintético que ligava os ombros à cartilagem mecânica dos braços. O corpo parou de tremer. Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino. 




Work in progress rolando os dados



A narrativa-centopeia em curso continua sendo publicada em Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea. Agora a terceira ala acaba de pisar no asfalto, confiram em http://www.mallarmargens.com/



quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os demônios do mar






















Chamei os demônios do mar
para lavar o teu corpo
de algas e carne sem ar.

Vieram velozes, aos berros,
bêbados de espumas venenosas.
Trouxeram unguentos e rosas
de resina,  úmidas de infortúnio.
Lavaram tuas barbatanas brancas
com bálsamo de abismo.
Despejaram águas lutuosas
nas cicatrizes do teu ventre,
entre os três filhos impossíveis.
Secaram o teu corpo com pedras
sacadas de secretas cidades submarinas.

Um demônio mais alto e hirsuto,
o hálito bem colado à tua carne morta,
ergueu pequeno frasco de  plástico.
Glauca, a última gota de licor incógnito
 derramada no lodo de teus olhos.

Estremeci vendo o movimento
de cortina aberta em tuas pálpebras.

A horda arremessou o corpo às ondas
envolto em tecidos de escamas.
Saíram aos berros, bêbados e velozes,
entoando canções de guerra.

Vivo até hoje perdido no cais
à procura de navio que me leve
ao ponto fora de qualquer mapa
onde teu corpo flutua, tesouro perdido,
mas ninguém ouve a minha história,
ninguém acredita na Ilha de Nunca Mais.

Chamei os demônios do mar
para lavar o teu corpo
de algas e carne sem ar.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Caderno em branco

White on White, 1918 -  Kazimir Malevich


Caderno em branco



DE CADA

DÉCADA

DISCADA

NOVES FORA 

NADA



Textos em Mallarmargens


A excelente Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea iniciou a publicação da série em prosa na qual venho trabalhando recentemente. O link da revista é http://www.mallarmargens.com/