segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
A arte de saltar janelas
Texto de passagem
Pronto para lançar-me fora,
desprendimento, desaprendizagem, única possibilidade de reencontrar o prazer.
Na lavagem de fim de ano, desfazer tatuagens com grandes movimentos circulares
sobre o corpo, ao final proferir três vezes: “lavo para que leves o que te for
entregue para enterro e cremação”. Vejo meus pedaços caírem em cubos, cones,
cilindros, desmontagem cubista do erro de ótica a que denominei “meu corpo”. O
que mais assusta são os gases, a fumaça, a névoa da alma em fuga. Às vezes
quero ficar em mim, nostálgico e acomodado às décadas de insegurança. O risco
de desmanchar-se é a sombra de um cataclismo: em vez de reinvenção o surgimento
de simulacro, a prevalência da redução em detrimento da ampliação arquitetada,
basta que materiais abandonados retornem misturados a outros ou que o marasmo
desenhe novo projeto. A nova página do rosto: verdadeiro mosaico. “Reescrever,
reproduzir um texto a partir de suas iscas, e organizá-las ou associá-las,
fazer as ligações ou as transições que se impõem entre os elementos postos em
presença um do outro: toda escrita é colagem e glosa, citação e comentário” (*). O
processo de revivescência cria cenários insólitos. Estou na fronteira com Walter
Benjamin. Ontem ele não dormiu. Ficou andando agitado, extremamente nervoso. A Gestapo a oito horas de distância; os Zetas, ao norte, à espera de nossa travessia com
presentes alojados em fuzis pós-modernos; as tropas franquistas, além Pirineus,
hostis com seus binóculos à nossa procura; a polícia militar de Rondônia, do
outro lado da fronteira oeste, nos confundindo com contrabandistas de diamantes.
Tomamos café, comemos bolo de milho e biscoitos. Benjamin não quis cachaça.
Jogamos cartas até eu lançar sobre a mesa a frase de Paulo, o apóstolo: “Como
uma cidade arrombada, sem muralha, é o homem que não domina seu espírito
(Provérbios, 25:28).” Benjamin fechou a cara, arrumou o óculos e desistiu de
jogar. Não existia ainda o livro de Badiou sobre os textos paulinos. Irônico,
Benjamin apenas disse “e depois eu é que sou um marxista messiânico”. Isso aconteceu ainda há pouco, na madrugada
de 27 de setembro de 1940. Agora, a três horas de 2013, enquanto vou me
despedindo de mim mesmo, posso observar a sombra de Benjamin ainda com a
injeção de morfina sobre o peito e o olhar dividido entre o quadro Angelus Novus, de Klee, e a pistola
sobre o criado mudo. Afasto-me de costas, contemplo horrorizado o acúmulo de
ruínas, sou um anjo sobre uma montanha de lixo tão alta que parece uma escada
para o Paraíso. Preciso fugir à tempestade que vem para salvar o mundo. Nenhum
olhar é mais aterrorizante do que a ilusão de verdade nas pupilas de um
salvador.
* COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice P.
B. Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996. p.39.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Mundo fora dos trilhos
A vendedora de jornais
atravessa
com lâmina de língua
cega
o trem de más notícias.
Nas estações do ano,
o prole/pariado apressado,
estudantes,
acidentes.
A vendedora firme
no leite para os filhos,
negro anjo anunciador:
“Morte da primavera
por envenenamento”
“Paixão canibal
detona relação a três”
“Novo governo
aluga a Amazônia por mil anos”
“Os Estados Unidos oferecem
eutanásia aos pobres”
“Marilyn Monroe será
beatificada pelo Papa”.
Antes que passe
ao próximo vagão
ainda posso ouvi-la:
“Madeireiras fecham as portas
por falta de árvores”.
sábado, 29 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Natal
Como o Natal virou uma gosma insuportável, espécie de deserção coletiva da ideia de humanidade e entrega completa à lógica diabólica do mercado, fiz essa pequena provocação à solidariedade.
Natal
Dizem os falsos evangelistas
que num bairro da periferia
nasceu um menino divino
em ambiente miserável.
Três magos vieram visitá-lo:
um foi abatido por bala perdida,
Os outros dois, sem documentos,
entraram na porrada:
um pastou dois anos
à espera de julgamento.
o outro milagrosamente
deu origem a mais um
auto de resistência.
Lúmen
Um lance de laços
sem estrelas
estreita um jogo
de fartos espelhos.
Os dados amarrados
não saem das pontas dos dedos
viciados
em apontar falhas e fiascos
lançados ao acaso.
As palavras recicláveis,
reutilizáveis,
descartáveis,
boiam nas vitrines do shopping
- mercado de sentidos em liquidação.
O jogo segue
cego e célere,
mas os jogadores sabem muito bem
que não há vocabulário
nem poetas-faxineiros
para limpar a sujeira de nossa miséria.
Jogam para sujar as mãos;
talvez do lodo uma estrela.
Caos
é meu nome
em dias de tempestade
e assombro.
No cais flutuante
do sonho
toda madrugada
o mundo acaba
sem trombetas
bem de mansinho.
Preciso morrer
de vez em quando
para adubar de sombras
palavras
ameaçadas de caminho.
Preciso morrer
para livrar-me
do acúmulo de fendas
no pergaminho do rosto,
para livrar-me
do peso de gestos
decalcados de noite e de dilúvio.
Preciso morrer
antes que o galo cante
qualquer redenção.
Pular a possibilidade
de sentido,
cortar qualquer entendimento,
viver sem explicações.
Preciso morrer
para permanecer vivo.
Fora de controle
Para alcançar
o inalcançável
escada magirus
cordas
roldanas
e balão de hidrogênio
tudo a caminho
do último andar
fora da linha
do horizonte
um trem no meio de
nuvens
em chamas
e não há água nas
mangueiras
sob holofotes
samaritanos
palavras suicidas
lançam pedras nos
bombeiros
pelo direito ao
inferno
domingo, 23 de dezembro de 2012
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Sistema de insegurança
Espelho
Veja,
meu bem,
este menino
dolorosamente adulto.
Também arremesso minha errância contra o horizonte.
Minhas pedras
muito mais leves
em suas arestas
perdem o alvo.
A carga do pequeno Ismail
muito mais letal e explosiva.
O altíssimo teor
de abandono e urgência
inscrito em seu arremesso
é o nosso batismo como apátridas.
Horizonte vertical
Adoro tempestades
fora de copos d'água,
mar derramado em tapetes
de carne bem verde,
plânctons entre paredes,
esponjas submersas em redes.
Podem ser rota maldita
os risos loucos
sobre o oceano.
Não,
não inverterei o curso;
corsário,
não vou deixar
o silêncio fazer água.
Para o quarto dos fundos
sem pânico
- todas as veias abertas.
domingo, 16 de dezembro de 2012
O portal Cronópios publicou a minha série de poemas "Não hai nem kai II". Confiram em
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5582
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Largado
Desde menino assim
ao largo.
A escola interna
- enferma escolha alheia -
antes depósito-inferno.
Nauta mirim no lodo
amargo
da mesa de mármore.
No entanto, o riso
natural, costura oculta
nas mangas do uniforme
listado
de fugas e abandono.
Nascido com os pés sujos
de ocaso,
restou-me
crescer para a aurora.
Um riso invencível
nos olhos,
intacto sol:
inviolável
fio fulvo escapa
de remendos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Conexão zero
![]() |
| Tela de Zdzislaw Beksinski |
Meu amor, ainda não é
a nossa vez,
a gente se vê
depois do talvez.
Não obstante,
se for muito distante
para você,
nos veremos
entre jamais e se.
Por conseguinte,
sempre há um senão
sinalizando lacuna no tempo;
destarte há temporal intenso
entre ainda assim e ainda não.
Apesar de tudo,
mesmo desse modo,
se pudesse eu diria logo
- te amo,
conquanto enfim você agora.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Sextinada
![]() |
| Trabalho de Giacomo Costa - Aqua 8 |
Para Arnaut
Daniel e Luís de Camões
Em caminhos fora de mapas morro
buscando a flor do fado, o fogo, o fundo
de nomes impressos no papel negro
que rasuram o lado escuro da alma.
Derrota de navio fora de rota,
minhas mãos lançam âncoras ao nada.
Corpo de perdas, carne em poemas nada;
em mar curvo me movo, moro e morro.
Sombra na contramão, bússola e rota
jogam-me molusco e nulo no fundo
da província azul onde se afoga a alma
entre recifes, Nêmesis
e negro.
Barco do destino de porto negro
zarpa em segredo, agra viagem ao nada.
Mais furada que as sete velas, a alma
pulsa alucinada. Ainda
não morro,
mantém-me vivo o impulso de ir fundo.
Nauta intimorato, não fujo à rota.
Trajetória marinha atroz e rota,
mais um degredo que travessia em negro,
toca o túrgido terreno do fundo;
limite inflado e volátil do nada.
De fronteiras e de palavras morro
ao sabor de ondas e de assombros na alma.
Occitano mar ritmado, minha alma
vaza rubros verbos rasos na rota
das noites dissolutas em que morro.
Corro célere ao largo campo negro
onde as palavras se afundam no nada,
recolho meu corpo morto no fundo.
Mergulho e memória cantam, no fundo,
canção de Fênix no âmago da alma,
jogo de perda e conquista do nada.
Pura imposição ou inventada, a rota
risca vã deriva em abismo negro,
linha do destino que vivo e morro.
Por navegar, morro ao mirar no fundo
do mar mais negro, minha insubmissa alma,
sem normas sem rota, arrostar o Nada.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
A morte quer me adicionar à sua lista de amigos
A morte se
aproxima
como a mulher do próximo
num paroxismo de carne apodrecida
e córneas caídas das órbitas.
Já lhe disse ao celular:
tenho células avessas a vadias vesgas,
não tenho onde cair morto,
moro entre nômades no ar.
Sem vergonha, a Marilyn Me Rói
decadente nega as flores
com um rifle potente
puta porque eu não quis
chamá-la de Leila Diniz.
Me atinge como onda asquerosa
o hálito de esgoto da Coca-cola letal
nos lábios lacerados pelo sol de Kandahar.
(Afirmam anônimos especialistas:
- A morte foi patenteada pelo Pentágono).
Já vejo o livro dos mortos
abertos na letra J.
(Idiota, há muito mudei o meu nome
para o alfabeto inca-venusiano).
Venha, madona das más notícias.
Vamos dançar um samba imortal.
Não vou rezar nem me arrepender de nada.
Recuso o Inferno e o Paraíso.
Beberei até o fim a água da vida.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Consumação
![]() |
| "O beijo", pintura rupestre, Serra da Capivara, Piauí. Foto de Ivan Padovan |
Antes que abras a boca e lances luz
púrpura sobre palavras perdidas
em eterna cobrança por outras vidas
insinuo que nada mais me seduz.
Mas rubra concha carnívora se arma
logo, nada vale minha defesa
covarde, a pele afunda-se na lama,
lábios acesos me tomam por presa.
Boca ilimitada, do céu e do inferno
a mesma entrada: palavras que matam,
beijos que me contaminam do eterno.
Morre a última palavra no céu
da caverna, onde os demônios saltam.
No peito e na alma
intenso fogaréu.
MPSL (Movimento dos poetas sem leitores)
De cismar à noite olhando as estrelas
decadentes das mulheres da vida
tropecei numa lixeira abóbora,
caí, bati com textos inéditos no chão
de minha cabeça opaca no meio da praça.
A abóbada guardou suas vértebras,
envergonhada, acima dos arranha-céus.
Eu, de alma suja e corpo exausto,
levantei acelerado a lua derramada.
Como insaciável assassino invisível
na contramão, na contraluz, ao léu
continuei contrabandeando poesia
em flocos, em pó ou em bolinhas de papel.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Quaterno
![]() |
| "O suicida", 1877, tela do pintor Édouard Manet (1832-1883) |
I
Caminhava
apressado por uma das galerias da Praça Saens Peña. Havia uma turbulência em
seus gestos, um vazamento de rancor e orgulho. Rapidamente as nuvens escuras
desapareceram. Pôde ver, então, um asséptico espaço subterrâneo de guichês, corredores,
escadas rolantes e roletas. Na realidade, entrava inconscientemente na área de
lançamento de um voo cego, tudo ali se constituiria nos registros físicos do
embarque na área cinzenta dos impulsos, do descontrole, da perda de rumo.
Próxima
parada – São Francisco Xavier; próxima parada – Afonso Pena; próxima parada – desespero;
próxima parada – o Inferno. Desembarcou como autômato na estação da Central.
Voltou a contemplar as nuvens, agora menos carregadas, atravessadas em pequenas
fendas por tímidos raios de sol.
A
calçada do Campo de Santana era insuficiente para os seus passos pesados,
largos, presos a tantos tropeços e desencontros. Os camelôs espetavam nos
ouvidos maravilhas de produtos. Até que surgiu, em frascos minúsculos, sem
qualquer destaque no colorido das mercadorias, a solução para o seu mal. Não
parou. O medo obrigou-o a olhar para diante. Ultrapassou o vendedor de bermuda
vermelha, camiseta do Flamengo e óculos escuros. O som, no entanto, permaneceu
em seu cérebro como farpa: “elimina qualquer rato”, “tiro e queda contra
aquelas ratazanas que invadem a sua casa”, “leve três e pague apenas um”.
Tremor nas pernas, uma sensação desconhecida adormeceu a língua, quis
continuar, não quis continuar. Voltou. Dirigiu-se ao ambulante com uma estranha
inflexão na voz - “Amigo, eu quero
quatro” - como se estivesse num confessionário.
Ligou
para Odete. Ninguém atendia. Insistiu. Novamente no metrô, de volta a Saens
Peña. Na Tijuca. pegou um ônibus rumo à Barra. Sentou-se ao lado de uma jovem
de óculos infantis e lindas pernas morenas. Não tirou os olhos. Voltou a ligar.
Odete atendeu: “Já falei pra você não me procurar!”, furiosa, do outro lado da
cidade. Ele não possuía nenhum argumento, só ameaças, a última: “Você vai se
arrepender”. Ela desligou. Ele desceu na Floresta da Tijuca.
Nunca
entrara no parque. O caminho era longo. Sem qualquer planejamento, as pernas
simplesmente avançavam, passavam ao lado de caminhadas de casais, jipes com
turistas, viaturas da segurança, risos de crianças. Mais à frente, pisavam no
sinteco carcomido do sala e quarto no Bairro de Fátima, cruzando os zigues-zagues
de Odete. Tropeçavam em frases com toneladas de pressão, uma atmosfera poluída
por contas, cartas de cobrança, carências, empregos perdidos, cursos não
concluídos, promessas não cumpridas. Irresponsável, podia ler pela milionésima
vez a última palavra de Odete, misteriosamente escrita no chão pelas folhas
caídas de árvores centenárias.
Íntima
correlação entre a subida do caminho e a ascensão da nódoa cinzenta em seus
pensamentos. Ingressava na faixa onde só se ouve o som da mata e dos bichos,
reconhecia, no verde, o deserto habitual. Sentiu que não venceria a distância,
exausto, quase no topo. Lembrou-se dos frascos.
Anexada
ao boletim de entrada no Hospital Sousa
Aguiar, foi encontrada esta declaração: “Odete, nunca conheci alguém como você.
Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente
perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar
o tranco, mas não deu”.
II
Abriu
com dificuldades a porta da quitinete caindo aos pedaços onde vivia, próxima ao
Largo do Machado. Bia ainda não voltara da casa de Luíza. Sacolas, malas,
trouxas, caixas de papelão pareciam pregadas ao chão, muda resistência de
objetos e roupas da vida em comum. Tudo enevoado agora, rachaduras nas fotos,
olhos inchados explodindo retratos de noivado e casamento: rascunhos de uma
felicidade não escrita até o final da página. Como dados enlouquecidos, as
palavras da mulher de sua vida estouravam sintaxe e sentido. Um mundo
desordenado fazia os móveis do conjugado levitarem na sala abarrotada de
acusações mútuas. Perder a mulher para outra
tornava-o menos que um homem. Diploma de fracasso completo, com louvor,
um ph.D em desastres amorosos andando em círculos no interior de um abrigo
reduzido a hospício. Nunca poderia pensar. Luíza tão delicada, tão educada, tão
feminina. Viagens à metade do mundo. Cursos em Londres, ex modelo, lista de ex namorados.
Assediada, desejada por todos. Logo ela. Ele chegara a pensar que...
No
minúsculo apartamento, o banheiro assemelhava-se mais a um túmulo, porém dava-lhe
a segurança de refúgio, pausa nas discussões e disputas. A camiseta do Iron
Maiden no porcelanato caramelo, a calça jeans acinzentada jogada no
porta-toalhas, ao lado das meias imundas e furadas. Sabonete barato suspenso
nas mãos, enquanto pisava o único tênis que lhe restara, voltou-se para dois
seios ofegantes à frente do acendedor do chuveiro a gás; olhos usurpavam o
lugar dos bicos e das aréolas. Os mamilos sussurravam falsas delícias,
obscenidades, numa linguagem sufocante. Sobre o balcão do banheiro, metade do
pó imobilizado.
O
número da besta, sim? Esquecera o número do celular de Bia. Não, não, a besta
era Luiza. Tomara-lhe a mulher, o apartamento, a vida. Sua carne viva malhara
desejos noturnos. Luiza selvagem e arisca. Perfume e perfeição dos peitos,
bunda de calendário de oficina. Quanto desejo, quanta deriva. Investira todos
os seus recursos de Don Juan falido, acenara com tudo que não possuía,
oferecera plurais sem majestade e superlativos baratos. Luíza firme, uma madre
Teresa de Calcutá, puro cristal. Traíra! Filha da puta! Joguinho safado por
trás das costas. Ela e Bia, provocação, deboche.
Esquecera
o bloco de rascunho na sala. Sorte contar com fita crepe bem larga. A caneta
falhava, como ele, mas daria para o gasto. Mais uma carreira sobre a pia. Ao
levantar a cabeça viu, no espelho manchado de velhice, Luiza atravessar a
parede, nua e deliciosa.
Exultou.
Em vão, logo após Bia cruzou as pastilhas da mesma parede com todo o esplendor
de seu corpo moreno. As duas se beijaram e se amaram em um banho de deusas sob
os seus olhos agachados no canto mais fundo do banheiro.
Alguém
acrescentou uma folha amassada ao prontuário do Hospital Miguel Couto, nela se
podia ler, em caligrafia confusa, declaração pungente em fita crepe colada no
papel: “Luiza, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à
deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a
sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.
III
Entrou
num táxi em frente ao prédio da Maison de France, onde passara a tarde toda
lendo um livro de Michel Déguy sem ter compreendido uma linha sequer, o
pensamento todo em Alana, irrompendo imagens, quebrando versos, rasurando
páginas.
De
volta ao amplo apartamento na rua Toneleros, em Copacabana, jogou-se sobre o
sofá verde musgo em L na sala com dois ambientes. Mais um final de semana sem a
mulher, perdida em Búzios ou Angra, sequer sabia o paradeiro certo. Nas últimas
semanas, o que ela lhe dizia chegava pastoso e confuso aos ouvidos. As palavras
tinham pontas alongadas que desenterravam um passado desconhecido, anterior à
fila de cinema onde a conhecera.
Entrou
no escritório amplo com três estantes entulhadas de livros. Alana perdida para
eternas pesquisas, simpósios, congressos, cursos. Professora universitária em
pastas diversas sobre a escrivaninha. De um retrato, ambos em sorrisos abertos,
saía tímida fumaça de felicidade. Sob um dicionário de francês um comentário
aos versos que ele escrevia. “Bons, mas frouxos [...] criativos, espontâneos
[...] pecam pela ausência de trabalho [...] grandes soluções anuladas por erros
gramaticais e fórmulas grosseiras [...] falta de leitura, péssimos hábitos
[...] inadmissível preguiça intelectual [...] anárquica irreverência, sim, mas
jogos de palavras sem sentido, trocadilhos infames rimados [...] tragédias
pessoais não transformam ninguém em poeta razoável, apenas revelam experiências
comuns a milhares de outros indivíduos”.
De
volta à sala, sentiu agulhadas nos ouvidos. “Você foi o maior erro da minha
vida”. Alana enlouquecida ocupava todos os cômodos do apartamento, enquanto
entre lágrimas, vermelha quase no limite de um AVC, soltava uma legião de
frustrações. “Te peguei na lama, seu filho da puta, e você só sabe beber,
arrumar confusão e me deixar sozinha, seu poeta de merda”.
Fechou
e abriu os olhos para espantar o demônio da memória. Quis sair, lembrou-se de
que acabara de entrar por já não ter para onde ir. Levantou-se
extraordinariamente lúcido e pesado. Foi para a varanda. Observou besouros velozes na rua e móveis
pontos colorindo as calçadas. Viu a cortina de prédios do outro lado da rua, gente
em outras varandas, um casal trepando no terceiro andar em frente.
De
repente, uma frase antiga de Alana passou voando bem à sua frente. Em seguida,
a mulher apareceu amorosamente nua e suspensa, pedindo perdão e chamando-o para
uma reconciliação definitiva. Ele não hesitou, seguiu em frente.
Entre
as anotações da ficha de entrada do paciente, em uma folha de caderno
universitário pautado, com margem dupla, podia se ler a lápis o último
parágrafo de um texto todo rasurado: “Alana, nunca conheci alguém como você.
Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente
perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar
o tranco, mas não deu”.
IV
Saiu
sonolento do sítio em Vargem Grande. Ligou o carro e apagou a sanidade. Louca e
acesa a seu lado, Tininha falava pelos cotovelos.
O
dia quase amanhecia quando chegaram à vila numa ruazinha perto da Praça Seca, em
Jacarepaguá. Banho tomado, a mulher apagou-se exausta. Ele permaneceu zonzo na
recém comprada poltrona reclinável azul-marinho, motivo de tanta discussão entre
os dois. A porta da casa permanecia escancarada como um convite. Não tinha
forças para se mover.
Já
estava cansado, passara dos cinquenta. Tininha vinte e cinco anos mais nova.
Pior, comportava-se como eterna adolescente. Patético, tentava acompanhá-la
mesmo em modo grisalho. O viço do corpo que tanto o encantara começava a se
apagar precocemente. Cada vez mais louca e viciada, Tininha atingira o estágio
da total perda de controle. Cada dia mais impotente, não conseguia segurá-la, sentia-se
uma nulidade, acompanhante mudo da decadência, personal trainer de catástrofes.
Voltou
ao quarto. Não encontrou a mulher. A cama permanecia perfeitamente arrumada.
Ninguém nela se jogara. No banheiro, tudo seco, nenhuma toalha molhada. Saiu
para ver o carro. Nada. Lembrou-se, então, de ter deixado o velho Gol grafite
na oficina. Voltou profundamente angustiado, sem encontrar explicações para o
que estava acontecendo.
Abriu
uma garrafa de uísque para se acalmar. Tininha surgiu com um copo e um sorriso
estranho. O peignoir aberto mostrava
os seios generosos parcialmente cobertos pelas pontas dos longos cabelos
molhados. Sentiu o perfume de outros tempos balançar novamente o seu destino.
Todas as mulheres desfaziam-se da carne para se transformarem em aparições em
sua vida. Nunca conseguira construir laços, todos os caminhos amorosos
deixavam-no no pântano mais próximo e mais fundo. Todas as vozes só se
aproximavam para envenenar a alma, demolir afetos, devastar a cidade interior. Lutou
para desvencilhar-se dos braços ainda roliços, repletos de marcas de picadas,
daquela morena mignon de beleza capaz
de mandar qualquer um para o inferno. O rosto diabólico de Tininha tirava-lhe o
fôlego. A cruel devoradora de seus últimos dias pisava o seu abdômen com
lâminas nos saltos, ajoelhava-se sobre o tórax enfraquecido, enfiava-lhe a
língua bipartida nos ouvidos.
Refeito do assombro, deu-se conta do estado alucinatório anterior. Além dele, ninguém na sala. Estava com o telefone nas mãos. Ouviu com atenção de colegial todas as instruções da operadora. Largou o aparelho, decidiu-se por um bilhete final. Equilibrou-se num gesto de extrema determinação até chegar à cama. Abaixou-se lentamente. Pegou uma caixa de papelão de algum Natal passado que, agora, servia para esconder a pistola Glock calibre 380, em fibra de carbono fosco, carregador de 16 tiros. Abriu-a com ternura na tentativa de ingressar em outra caixa, bem maior e definitiva.
Refeito do assombro, deu-se conta do estado alucinatório anterior. Além dele, ninguém na sala. Estava com o telefone nas mãos. Ouviu com atenção de colegial todas as instruções da operadora. Largou o aparelho, decidiu-se por um bilhete final. Equilibrou-se num gesto de extrema determinação até chegar à cama. Abaixou-se lentamente. Pegou uma caixa de papelão de algum Natal passado que, agora, servia para esconder a pistola Glock calibre 380, em fibra de carbono fosco, carregador de 16 tiros. Abriu-a com ternura na tentativa de ingressar em outra caixa, bem maior e definitiva.
Ao
procurar, entre tantos documentos, o formulário de alta do paciente, Duília,
auxiliar de enfermagem do Hospital Lourenço Jorge, deixou cair uma folha meio
rasgada em que se podia ler declaração única e inesquecível: “Tininha, nunca
conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando
aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o
que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.
Assinar:
Postagens (Atom)























