sábado, 5 de dezembro de 2015

Nuvens
















Nuvens

Tentei contar
todos os lados de uma nuvem
mas logo tudo o que eu contava
se desmanchava
e outra forma
me obrigava a recomeçar
a olhar de lado
até que a nuvem inteira
mais suja e cheia
integrou-se à outra maior
e incontrolável
eram tantos os lados
ocultos por paredes de prédios
de insuportável arquitetura
que o céu pôs de lado o azul
e todas as nuvens se recolheram
ao lado escuro
onde só os sonhos contam.




quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ocupação
















Ocupação

Ocupam os alunos
as escolas
quando o governo
vira as costas
à educação.

Ocupam os alunos
as escolas
quando o governo
 não se culpa
pela merenda de ódio
ofertada a crianças e adolescentes.

Ocupam os alunos
as escolas
quando o governo
não ocupa lugar
em rodas de leitura
ou rodas de samba.

Quem dera
os estudantes ocupassem
- por mínimo que fosse -
algum circuito danificado
capaz de explodir

a alma de gelo do governo.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Dez bailarinas mortas





















Dez bailarinas mortas
manchavam a manhã.
Mãos amarradas nas costas,
pernas exaustas de pavor,
arrumadas na última coreografia
da  dança da morte.
Meninas de cabelos presos
e sonhos soltos no palco,
escondiam - num salto - sorrisos
e palavras carregadas de graça,
leveza, poesia, determinação.
Romina, Letícia, Dalva, Bia, Nina,
Laura, Gislaine, Maria, Thaís e Rô
(Marta foi a única que escapou).
Dez bailarinas mortas
manchavam a manhã.





segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Livro de contos


Os extermineradores não têm alma

Parque Estadual do Rio Doce













Os extermineradores não têm alma

Inunda a lama
mais que um rio,
a vida.

Fora da via
coletiva,
o sonho desfeito:
rio fora do leito.

Clara, só a água
que emana do peito
e do sonho
de quem não nega
nem negocia
o verde, as palavras
e a poesia.



Primavera dos Livros 2015


Fora de forma & outros foras


Voltei para avisar que vou lançar um livro novo.
Dessa vez são contos.
Fora de forma & outros foras,
publicado pela Editora Ibis Libris,
será lançado na
Primavera dos Livros
no Museu da República
Rua do Catete, 153 - Catete - Rio de Janeiro 
a partir das 18h





sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estação de muda





Estação de muda

A poesia amanheceu
secando
as cordas vocais
como se as palavras
fossem
roupas no varal.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Camões













Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.