terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um brinde à blindagem



























Corpo enrolado em névoa
e arame farpado,
movo placas tectônicas,
camadas de fotos aéreas
em infravermelho,
pacotes de liga de solidão e amnésia.

Escamas metálicas
nos olhos de acrílico
e em suas marquises de carbono,
miro muros em ruínas;
gravadas no náilon da pele
cargas de C4,
acupuntura em pontos enigmáticos.

Instalo
sensores de distância
e movimento,
qualquer fragrância
em falso
de entendimento e primavera
aciono o controle remoto.

Material refratário
à lua de camurça
sobre o campo de gencianas azuis,
meu chapéu de nenúfar,
camuflagem no câncer da paisagem,
me conduz em ruas de resina
âmbar
entre armadilhas de argamassa e batuque.

O programa completo do holograma
do homem blindado e invisível
oculta cornucópia na lua cheia.


sábado, 27 de outubro de 2012

Suicídio secreto

Trabalho de Ivan Solyaev




























Não sei o que há comigo
dei um tiro no ouvido
ainda há pouco
a bala entrou por um lado
e saiu por outro.


Três "Não hai nem kais"

















I

1, 2. 3
vezes seu rosto no espelho:
o amor, foz em cacos.


II

Me aqueça inteiro
me esqueça pela metade
50% saudade.


III

Sexo memorável,
corpo a corpo da varanda
ao último quarto.

SELF SERVICE S.O.S.

Gustav Klimt

























Vendo
torta de amor
aos pedaços
sem glacê
sem cereja
sem você.

Amassado
abaixo
da calda de ameixa
no meio
de amêndoas
e nozes
recheio
de vozes
e e-mails
em línguas mortas.

Cada fatia
vale
o peso
da tua ausência
em ouro.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mallarmargens



Mais dois poemas meus foram publicados na excelente Mallamargens - Revista de poesia e arte contemporânea. Confiram no link abaixo:

http://www.mallarmargens.com/2012/10/2-poemas-de-jose-antonio-cavalcanti.html

domingo, 21 de outubro de 2012

O colecionador

Trabalho de Cildo Meireles


















Apressado
por palavras importunas,
ergo a voz
para baixar meu retrato
de um arquivo morto
onde,
coberto de anêmonas
e betume,
anemiza dedicatória infame.

Sim,
este sou eu,
rasurado rosto
sem lábios,
a orelha direita mutilada,
apenas um olhar boiando
insuficiência e naufrágio.

Recolho
o minuto irrecuperável,
guardo-o com cuidado
de antiquário
na galeria fantasma
dos atos falhos,
ao lado
de outras cópias
imperfeitas
do corpo devoluto.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O passado é mais à frente



















Segue
a sombra
como se mil setas
a orientassem
na avenida morta.

Perseguidora implacável

joga a pistola de mira laser
no banco do carona.

Abre a bolsa,

retira um batom
e acelera
comprimindo os lábios.

A sombra 

do outro lado da rua
desparece
na curva em esse.

Pisa no freio,

vê no retrovisor
da sombra
à esquerda da penumbra.

Dá marcha ré

até alcançar
um almoço
perdido no passado.

Atropela,

ágil e aliviada,
as palavras
pousadas
em postas de peixe.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

26 não hai nem kais
























Há males que vêm,
há outros que vão embora,
os piores voltam.

2

Folhas maduras
dançam na luz noturna
do olho da rua.

3

Mãos estendidas
na chuva. Os pés não cabem
na rua alagada.

4

Luz suspensa. Ar
parado. Vento morto.
Você no portão.

5

O frio nos espia
com grossas lentes azuis.
Geleira no corpo.

6

As folhas estalam.
Minha amada me segue
para cegar-me.

7

Cigarras virão
com canções de despedida
aquecer o verão.

8

Bashô no Leblon
viu a lágrima na onda
da banhista nua.

9

Frutos nos galhos
em breve. Polpa nas bocas,
pecado nos corpos.

10

Camaleão imóvel
escreve eternidade
no muro em ruínas.

11

Plantas adormecem
na cidade morta. Filtram
ar, silêncio e sonhos.

12

Risos na floresta.
Concerto a quatro mãos
a canção do amor.

13

O rumor das águas
embala a madrugada.
Carícia sonora.

14

O céu desaba
chuva e cheiro de terra.
Lentes lavadas.

15

Nova primavera
invejosa do verão
incendeia a flor.

16

Calor infernal,
aves voam em chamas
no céu amarelo.

17

Quando o outono
voltar, outro amor virá
com a aurora.

18

Estala o galho
quebrado como beijo
seco e gelado.

19

Folha de veludo
verde no chão vagabundo,
breve as formigas.

20

Tremor no céu
manhã de tempestade
sem você ao lado.

21

Sabiá suspenso
no poste cinza inclinado
canta luminoso.

22

Diz Nuno Ramos:
lesmas lambendo a lama,
juncos sob o sol.

23

Lágrimas na lua
caem de olhos magoados.
Madrugada cheia.

24

Te vejo no beco.
Cabe o universo inteiro
em via tão estreita?

25

Neblina espalha
blindagem na mata verde.
O sol traz a chave.

26

Vulto sem asas
o uirapuru de plástico
e pilha. Pilhagem.





Camuflagem

Trabalho de Desiree Palmen



























Quando a noite cai
ou sobe
ele veste uma roupa
em camadas
oníricas,
listrada de desejos,
fora de moda
e pobre.

Cor de tempestade,
tamanho M,
de pernas enormes,
toda em algodão
e cobre.

Cordão grená
segura o capuz de couro
em torno do pescoço
do homem que foge.

Mangas imensas,
abertas ao infinito,
constroem cavernas
para membros suspeitos.

Pernas ortopoéticas
amputam palavras
no campo de pés quebrados.

Rimas líquidas
enceram os sapatos com embriaguez
e elegância;
a música derrama malícia
no piso e no papel
sobre os quais ecoam
os passos em falso
de mil disfarces.

O inominado desaparece
quando aperta o sétimo botão
perolado da camisa bege
sem deixar vestígio.

Seu olhar é a polpa impalpável
do impossível.



O falso Prometeu



Prometeu Acorrentado (1762); Sebastien Nicolas-Sébastien Adam (1705-1778); escultura em mármore (Louvre).

As meninas
queriam brincar com fogo
mas Prometeu
esqueceu as regras do jogo.





Estou nesta antologia que será lançada dia 18 de novembro.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ilha da rua deserta

A caravela, Salvador Dalí








































Quarenta graus ao norte
de latitude desconhecida
localiza-se inóspita ilha
perpendicular
à morte.

Meio limbo
meio purgatório
assemelha-se ao pátio de presídio
onde condenados esperam
as grades do destino.

Alguns estudiosos asseveram
tratar-se da sala de espera
que antecede à decisão obscura
de imperatriz noturna
em imperial câmara condenatória.

Eu que nela vivo
o naufrágio da minha Dinamene
pouco me importo.
Se já alcancei as suas praias desertas
foi porque eu mesmo fechei todas as portas.



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dose dupla


























Boa noite,
Sr. Golyádkin,
também
me chamam assim.

Somos sombras
cúmplices,
vacilantes,
falhas em duplicata.

Por favor,
coloque o capote,
aperte a minha mão
e o passo.
Não faça 
essa cara de espanto
nem me desaponte
com seu desdém.

Vamos vagabundear
por Petersburgo
em carruagem de cavalos de Kazan
digna do tsar.
Sairemos da rua Chestilávotchnaya,
atravessaremos
a ponte Izmáilovski;
Clara Olsúfievna
nos espera
vestida de versos franceses.

Não, amigo,
não há mais bailes aristocráticos.
Breve estaremos na neve
da avenida Niévski,
comemoraremos a morte
do Grande Inquisidor
no cabaré Príncipe Míchkin.


.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mirante











































Relato pseudocientífico de uma expedição fracassada devido às intempéries e a problemas estomacais. Dei-lhe o título inexpressivo de mirante, mas poderia ser miragem, milona, mistínio, moreia, matuscada, mentepídea, molambagem etc.



MIRANTE


Trilha
vadia
sub

       ida
f/vendas
t/curvas
em
S
L
C
fadiga
vista verde
suor no c/ouro
da camisa
c/alada no corpo
mosquitos
formigas
em fila
garrafas de água gasosa
no vale tudo
por um minuto de beleza
natural

Acreditaste, então, no que vias?
Tonta,
meus olhos te comiam viva
mas acabei comendo alpiste.



terça-feira, 9 de outubro de 2012

Belicóptero

Projeto de helicóptero de Leonardo da Vinci





















Palavra sem poesia
invade o céu
da cidade

o silêncio
alvo
nos telhados
na mira dos automóveis

do céu
caem sons
nos corpos
do gueto

no chão
dois mortos
entre
cartuchos e cactos

Latência





















Dois minutos
duas horas
dois dias
dois anos
dois séculos
e o pulso dos teus olhos
ausentes
não se fecha



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Do lado avesso





























De passos suspensos
a levitação.
Basta leve impasse
e talvez a corda bamba
acorde
onde tomba
o artista,
do outro lado do chão.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O desmonte do peixe

Trabalho de Ben Goossens 























Pobre peixe de escamas encarnadas
preso à camada mais funda das águas
geladas, guelras nas algas, quebradas,
carne incapaz de escapar a pancadas.

Nadou em círculos por toda a existência
contra o sal de segredos submarinos.

Jaz aquático oráculo vermelho
sem palavras, em naufrágio, na lâmina
do espelho submerso sobre milênios,
sem reflexo de alma, corpo ou destino.

Barbatanas boiam abandonadas
na pele azul de mil lençóis atlânticos.
O leito marinho, no entanto, guarda
mais partes do peixe despedaçado;
poemas, planetas,  palavras dormem
no fundo oxidado do  espesso oceano.