sábado, 29 de junho de 2013

Apuro





Para apurar
um poema
depauperado,
temperá-lo
até  calar
os apupos
da plateia,
passará o poeta
por mil apuros
que o poema
para ficar no ponto
se depura no escuro.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Destino, desconhecido





















Saiu do prédio
apressada,
os passos de olho no relógio,
talvez expulsa por um demônio;
um que salta muito além do sono
e se instala no momento em que
a louça suja ainda na mesa e nuvens atrás da janela
(demônio do meio-dia, diziam os antigos).

A bolsa não sossegava nos ombros.
A vida também escorregava
as mãos no celular
só para se ancorar em caixa postal.

Talvez fosse ao cinema
combater a lava embargada
no fundo da garganta
com leveza de comédia romântica.
Talvez pensasse
em acerto de contas com o amante
negligente,
até mesmo em tiro de misericórdia.

Mas quem pode saber
aonde vai uma mulher
em vermelho incandescente?


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu sou um outro sempre uma nuvem à frente




















Há algo comigo
que não assimilo.
Em mim
o mais distante
horizonte
rasga o umbigo
e segue adiante
indiferente
ao meu pânico,
um afluente
inverso
- rio de matéria escura-
corre em refluxo constante,
ilegível verbo evasivo
inconjugável
conjura a falência dos sentidos.
Entre pleura e pneuma
o trânsito de inessência
intratável,
um lance
sempre fora de alcance.

E se eu for
somente aquilo que me escapa?


terça-feira, 25 de junho de 2013

Vinagre: Antologia de poetas neobarracos




Estou entre os poetas da antologia Vinagre: antologia de poetas neobarracos.

Leia a antologia no link abaixo:

http://pt.calameo.com/read/002515624634ef893c090

Poetas que participam da antologia:

Adalberto do Carmo
Ademir Demarchi
Adriano Scandolara
Airton Souza
Alberto Lins Caldas
Alberto Pucheu
Alex Simões
Alexandre Guarnieri
Alexandre Lettner dos Santos
Alexandre Revoredo
Amandy González
Ana Lucia Silva
Anderson Lucarezi
André Fernandes
André Luiz Pinto
Andréa Catrópa
Baga Defente
Bárbara Lia
Beatriz Azevedo
Beto Cardoso
Bettto Kapettta
Bruno Gaudêncio
Bruno Latorre
Bruno Prado Lopes
Caetano Minuzzo
Caio Fernando
Camila do Valle
Camillo José
Cândido Rolim
Carina Castro
Carla Kinzo
Carlito Azevedo
Carlos Antonholi
Carlos Eduardo Marcos Bonfá
Carolina Tomasi
Cecília Borges
Chris Oliveira
Cide Piquet
Cinthia Kriemler
Cláudio Portella
Danielle Takase
Danilo Tobias
Davi Araújo
Denis Moreira da Costa
Diego de Sousa
Diego Vinhas
Dimitri Rebello
Diogo Mizael
Dirceu Villa
Domenico A. Coiro
Donizete Galvão
DouglaSouza
DuSanto
Edson Bueno de Camargo
Eduarda Rocha
Eduardo Sterzi
Elaine Pauvolid
Emmanuel Santiago
Érica Zíngano
Fabiano Calixto
Fabiano Fernandes Garcez
Fabiano Maffia Baião
Fábio Aristimunho Vargas
Fábio Gullo
Fabrício Corsaletti
Felippe Regazio
Flávio Corrêa de Mello
Fred Girauta
Gabriel Pedrosa
Geovani Doratiotto
Gigio Ferreira
Giuliano Quase
Graça Carpes
Guilherme Gontijo Flores
Guilherme Salla
Hélio Neri
Heyk Pimenta
Igor Alves
Israel Antonini
Ivan Antunes
Jeanne Callegari
Jessica Balbino
Jéssica Chelsea Cassiano Alves
João Campos Nunes
Jorge de Barros
José Antônio Cavalcanti
Jota Mombaça
Júlia de Carvalho Hansen
Julia Mendes
Juliana S. Müller
Jussara Salazar
Katerina Volcov
L. Rafael Nolli
Lara Amaral
Leandro Rafael Perez
Leandro Rodrigues
Leo Gonçalves
Leonardo Chioda
Lisa Alves
Lucas Bronzatto
Luciana Miranda Penna
Maiara Gouveia
Makely Ka
Mamede Jarouche
Marcelo Ariel
Marcelo Noah
Marcelo Sandmann
Márcio-André
Marco Cremasco
Marcos Visnadi
Marcus Oliveira
Mariela Mei
Maykson Sousa
Micheliny Verunschk
Nairana Melo
Nícollas Ranieri
Nina Rizzi
Nydia Bonetti
Orlando Lopes
Paula Corrêa
Paulo de Toledo
Pedro Marques
Pedro Tostes
Rafael Courtoisie
Raphael Gancz
Renan Inquérito
Renan Nuernberger
Renan Virgínio
Ricardo Domeneck
Ricardo Pedrosa Alves
Ricardo Rizzo
Rodrigo Garcia Lopes
Rodrigo Lobo Damasceno
Rodrigo Moreira Pinto
Roque Dalton
Rosana Banharoli
Rosane Carneiro
Rubens Guilherme Pesenti
Rubens Zárate
Sandra Santos
Sérgio Bernardo Correa
Silvana Tavano
Simone Brantes
Takeshi Ishihara
Tarsila Mercer De Souza
Thadeu C. Santos
Thiago Cervan
Thiago Galdino
Thiago Mattos
Tiago Cunha Fernandes
Tiago Pinheiro
Tito de Andréa
Vânia Borel
Waldo Motta
Walter Figueiredo
Wladimir Cazé
Zeca Lembaum


sábado, 15 de junho de 2013

Poema em Mallarmargens



Sextinada, minha sextina em homenagem a Arnaut Daniel e Camões, foi publicada em Mallarmargens - Revista de Poesia e Arte Contemporânea. É só clicar no link abaixo:

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Auto de resistência











Na sala ao lado
agentes
executam protocolos
de controle,
o padrão de resposta
alterado

as cobaias
reagiram a novas toxinas
depois que um vírus implodiu
o programa de espionagem

talvez por isso
sobre o  quarto indivíduo à direita
suspeita
de ameaça terrorista
: um poema escorre pela boca.


Dia dos namorados






















Quem diria, Isolina,
nosso namoro
terminaria
entre flores
de embrulho de presente,
o coração
em shoppingpong.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Frequência




















Você opera
fora de sintonia
nota-se
pelo perfume
o espírito amador
da simulação
o riso, falso orgasmo
pendurado no corpo

as vozes na sala
descem como ratos
esôfago abaixo

sim,
às vezes
um holograma queima
entre as pernas
e um sanduíche
cochila em cima de gráficos

um desfibrilador aos pedaços
trará seus olhos novamente à tona
sistema imunológico
invadido por vírus desconhecido
forma pronta
para implante de células-tronco
da anomia.




quarta-feira, 12 de junho de 2013

Nona incursão à carne

Egon Schiele




A terceira queda no furor do corpo, três vezes o galo sobreposto à mudez, três cruzes no calvário acima do tórax, três vezes a água batendo no queixo. "Levanta-te, Lázaro" – e era como se um deus desconhecido rasgasse os estreitos limites do desejo, irrigando com verbos em aramaico canais secretos; talvez soprasse com desânimo uma das trombetas oxidadas após a queda das muralhas de Jericó. Sim, também os deuses aprenderam as margens noturnas dos homens, saem de pesadelos em bando para invadir a topografia afetiva clandestina, sabem agora que todas as cidades são Sodoma e Gomorra. A desconhecida ria em sua nudez esplêndida, risos de puta, risos de quem abre as pernas às varizes e à exaustão das horas. Pela janela, infiltração da lua de cobalto. E, frenética loucura amorosa, gozava e ria a intervalos bem largos, na mesma frequência dos espasmos com os quais cobríamos nossos corpos gangrenados de carências. Os olhos, às gargalhadas, urravam: “Canalha! Filho da puta! Eu tô chapada, seu babaca!”  A carne ulcerada já não sentia o prazer em excesso, muito além do preço combinado. A cidadela indefesa, a trompa de Falópio sitiada, uma legião microscópica condenada pela insânia de um comandante tarado. “Seu merda, lúcida eu não gozava”, eu quase não ouvia, o olhar fixo na barriga em três dobras com uma cicatriz em cada lado. 


terça-feira, 11 de junho de 2013

Interferências



















1.

Fora do figurino
gestos
em colapso,
palavras
em gestação prematura
atrás do vidro.

2.

Algo iria nascer
quando
o perímetro
reduziu-se à redoma.
Infiltração
uterina purga
poças em páginas
murchas.
Ruptura hidrodinâmica
dos pulsos
em plena expansão térmica.


3.

Apenas um peixe anódino
(paralisado na boca)
atravessa o círculo polar,
o frio na espinha.




segunda-feira, 10 de junho de 2013

E pur si muove























O caminhão de entulho
em breve
para o sofá bege;
o mofo
no forro estufado
pesa uma jazida de minério
submersa
em água morta.


domingo, 9 de junho de 2013

Sem escape

Trabalho de Shin-Yeon Jeon 

















Dizer da aridez
secreta palavra quase verdade
límpida crueza
de dentes perfeitos
onde se exumam
jogos de sombras inservíveis
para sobremesa.

Acrescentar ainda
pontuação de jogo perdido
antes mesmo que as cartas
caiam em mãos suspeitas
como o amor em negativo
da velha kodak.

Derramar
o café sobre a toalha
coagulada de frases mortas
e erros de ortografia.
Jogá-la no cesto, depois,
para que murchem
nódoas e lume.


Abrir o gás.


Bandeira na noite alta
























Atrás de textos
(noite de mil páginas);
à frente de fantasmas fugidios
emergindo da tela
(nela, exílio da fantasia,
o branco causa pânico).

Ob
       servo
cometa
- luz carimbando pálpebras
murchas
(pétalas despojadas do perfume
do dia).

Vem,
em passos de susto,
um surto de sombras e desarmonia
ao cair do corpo
em chão de transgressão e plumas.

Na terra vazia do depois,
no além de,
no para lá do possível
arremessar com fúria de Prometeu
palavras ao limbo, 
escavar o interdito
com a face encharcada de lama e luz.

Atrás de textos
(noite de mil páginas)
acendo beijos como velas
(ou Bandeiras)
capazes de redimir os corpos
e arruinar as almas.




sábado, 8 de junho de 2013

Obama facio facespy




OBAMA FACIO FACESPY


               

                            F A C E B O O K



                            F           B



                            F           B        IHHH!



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Circuito em branco



























Reticente
movimento
auricular
refém
da lua minguante
a língua
(sempre de partida)
ausculta
membranas de palavras
in vitro
baú de frases mortas
intraduzível
consulta íntima
a camadas necrosadas
de silêncio
oculta disfunção
na saída
do labirinto
abscesso
na trompa de Eustáquio
ígneas cartilagens

da irrupção à ruptura
ninguém à escuta



A descoberta do fogo


























Na escada
entre o sexto e o sétimo
andar
a carne ávida
(fervilhante
de urgências)
rolava
degrau
em grau.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Lamê argentino

O flautista, de Clóvis Graciano



























borogodó
emanava
do corpo
paetê
pretérito
imperfeito

você mora
aqui ó,
confete no peito

bora pro bloco,
Delfina.


Palavra velada

Escultura em madeira do artista italiano Aron Demetz


























Antes que venha a invasão noturna
e levante as veias fora da pele,
antes que os cílios caiam em coma
e o coração se negue sete vezes,
antes que os dedos cortados ensaiem
a volta ao vórtice da mão esquerda,
a palavra encravada na garganta
cortará as amarras da mudez.



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ruralesmas assassinas


















Foi-se
o tempo
de pegá-los
a laço
apagá-los
com chumbo grosso
riscar com facões
seus traços
agora evoluímos
sobrevoos
sobre ocas
polícia federal
contra cocar
força de segurança nacional
nazibandeirante
agromilícia
com infravermelho
e pistola taser
sentenças (de morte)
judiciais
traçam novo mapa
rasuram-se reservas
línguas silenciadas
terra for sale


"Conexão fantasma" em Mallarmargens




Mais um texto meu foi publicado em Mallarmargens - Revista de poesia e arte contemporânea. Confiram no link abaixo:

http://www.mallarmargens.com/2013/06/conexao-fantasma-de-jose-antonio.html

terça-feira, 4 de junho de 2013

Bantustões olímpicos




















Alguma coisa
sempre cai
(além do queixo)
quando se penetra
em rua
de um mesmo
e alheio território

O bairro mais próximo
(completamente fora de eixo)
estende
muda hostilidade
em pipas vermelhas
na fronteira
a
    bando
                  nada
amontoam-se becos
de armas e ameaças

Vai-se ver a última mulher
vestida de domingo
para um samba de gala
mas o amor
sem passagem
engole mensagem no celular:
há revistas
barreiras
barricadas
pneus incendiados
balé kamikaze em lajes

na esquina
caveirão
para nos lembrar
a perfeita simetria entre a ordem
e o silêncio dos cemitérios