sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Conexão fantasma

 trabalho de Rauschenberg









































Pegou a mochila, sacou o lápis para desenhar
Ineses mortas e perdidas Penélopes. Incapaz de 
qualquer traço, abriu o laptop e acabou escrevendo
o título de poema informe. "Pêssegos à margem",
o tom joyceano dispersou-se no espírito tomado
p
or multidão e algaravia. Intumescidas palavras
escorriam pelas pálpebras, vinham impregnadas
de películas de fracasso. Podia, ao fechar os olhos,
escutar todos ritmos do desastre. Abriu a terceira
gaveta para pegar desculpas e fôlego. Na verdade,
queria apenas esquecer a dormência do olho direito
e a ardor nas axilas. Alguém jogara alvejante
na lua, talvez a mesma pessoa que espalhara Nora Ney
na madrugada. Três folhas de rascunho lançadas
aos canteiros do prédio em obras, andaimes farpados
na geometria de desconcertos camonianos.
Três vezes o coração em oferenda a clínicas cardiológicas.
Três vezes o nome capaz de destruir o universo
instigou passagens secretas da memória.
Da mochila sacou o "Poesia expressionista alemã"
para vampirizar Berlim, Dusseldorf, Munique,
nosferateando Gotffried Benn,, August Stramm
e Goerg Trakl. Sentiu fome, sentiu sede. Nada o
levantaria da cadeira de pé quebrado,
iria noite adentro bamboleando quedas e fracassos,
laptropeçando sempre na mesma tecla.



História da poesia sob a perspectiva etílico-esquizofrênica




















Um poeta louco
colocou um pelotão de decassílabos
alinhado em colunas imponentes
e ordenou, com voz de besouro modernista,
o fuzilamento de todas as rimas.

Atingidas por rajadas
de chaves de ouro, cesuras e granadas
as estrofes fugiram em pânico
para o pântano Anacrônico.

Do outro lado da página
leitores exaltados
tiveram crises de versos e nervos.
Afundaram palavras em liberdade
em baús gigantes
e jogaram fora as chaves
de qualquer poética.

O poeta louco,
mais louco ainda,
isolou a experiência em experimento.

Tempo louco (poema fractal)



























agora
há pouco
depois
de antes
é agora
depois
de agora
diante de
daqui
a pouco


Forma instável





















A palavra
plana
no sopro
em que se misturam
impulso
e procura.

O próprio do poema
matéria impura,
marca
a impropriedade do nome.

A dez milhas de metáforas
ao norte
ou a cinquenta graus
nas dunas do deserto
o mesmo dilema amoroso:
embriaguez ou recusa.

Equilíbrio,
solidez,
pesos falsos no poema.

Lucidez líquida,
palavras circulares
nada fixas
nadam danadas
na danação do nada.


O grande porre de ontem



















Uma garrafa
mais uma praga;
podres petiscos
sabor de perda.

Por favor, sal
em carne amarga,
ferida, amor
mui mal passado.

Quero lavar
memória morta
em cem mil copos
envenenados.

Só traga a conta
caso a alma tonta
em caos e ocaso
tombar em coma.



Fora de órbita





























Vivo em curto
circuito
à longa distância
do círculo
explosivo
do teu corpo de excessos

Sou visível
a olho nu
na constelação em espiral
do outro lado da sala.

Tudo é questão de grau
e abrigo.
Basta moveres
com delicadeza e matemática
palavras contrabandeadas
em antigos mapas astronômicos;
compreenderás,
então,
que ninguém paralisa o universo
para voltar incólume
depois da tempestade.

Órbitas desviadas
lacram as linhas do retorno cósmico.

O amor em fuga
forma a matéria escura do universo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Golpe de vista











Quando você pisca,
abalo sísmico.

A pedra do caminho



























É duro, Drummond,
o amor no meio do caminho
virar a pedra
que tem no meio do peito
o caminho
que tem no meio da perda.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um brinde à blindagem



























Corpo enrolado em névoa
e arame farpado,
movo placas tectônicas,
camadas de fotos aéreas
em infravermelho,
pacotes de liga de solidão e amnésia.

Escamas metálicas
nos olhos de acrílico
e em suas marquises de carbono,
miro muros em ruínas;
gravadas no náilon da pele
cargas de C4,
acupuntura em pontos enigmáticos.

Instalo
sensores de distância
e movimento,
qualquer fragrância
em falso
de entendimento e primavera
aciono o controle remoto.

Material refratário
à lua de camurça
sobre o campo de gencianas azuis,
meu chapéu de nenúfar,
camuflagem no câncer da paisagem,
me conduz em ruas de resina
âmbar
entre armadilhas de argamassa e batuque.

O programa completo do holograma
do homem blindado e invisível
oculta cornucópia na lua cheia.


sábado, 27 de outubro de 2012

Suicídio secreto

Trabalho de Ivan Solyaev




























Não sei o que há comigo
dei um tiro no ouvido
ainda há pouco
a bala entrou por um lado
e saiu por outro.


Três "Não hai nem kais"

















I

1, 2. 3
vezes seu rosto no espelho:
o amor, foz em cacos.


II

Me aqueça inteiro
me esqueça pela metade
50% saudade.


III

Sexo memorável,
corpo a corpo da varanda
ao último quarto.

SELF SERVICE S.O.S.

Gustav Klimt

























Vendo
torta de amor
aos pedaços
sem glacê
sem cereja
sem você.

Amassado
abaixo
da calda de ameixa
no meio
de amêndoas
e nozes
recheio
de vozes
e e-mails
em línguas mortas.

Cada fatia
vale
o peso
da tua ausência
em ouro.