terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Curiosol - dez gotas antes de pesadelos





















Se não há céu
e estamos sós
o que há

entre

nós?



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Céu de Khlébnikov




























Khlébnikov,
a linguagem zaúm
dupla vida de Ka
nariz quebrado
em ringue mma

Para a plateia
na pista
chave de palavra
protocolar
cena réptil-repeteco
a se perder de vista

Ilegível a consumidores
de signos calcifalsificados
(voz irmã Maiakóvski),
aberto a páginas de cidades
sem dromos donos drones
dormitérios
crematúrias
midientulho

Khlébnikov
gregorussegípcio
fonopoema em ouvidos  
no pântano de vírgensvírgulas siberianas
nas covas lexicarnívoras de etcterbrados
para infiltrações antitautologia

Poeta
energeia
ergonauta






domingo, 3 de fevereiro de 2013

Balas de veludo


























As balas
blá-blá-blá
também
matam

Não 
portam palavras
de luta,
mas seus cartuchos
espalham
o método do luto

Mais
que bala traçante
ou dundum
o calibre
das balas
blá-blá-blá
abala
abole
a consciência
de qualquer um

Matam
de hipnose
de crepúsculo
de deserção
de atonia

Pelas feridas
das vítimas
esvaem-se
as libertárias
flores da fantasia.





sábado, 2 de fevereiro de 2013

Escuta






















Escaneei
o silêncio

o arquivo
com vírus
emite estranho
ruído
- insetos em chips

extravio
extra viagem

escuto 
sangue
ausências
distância




Leitura secreta



















Luvas negras de luto
trêmulas em mãos míopes
acariciam cartas antigas
em caligrafia chinesa
(talvez sânscrito
a escrita em colunas
no xadrez da toalha suja).

No papel prevalece
a erosão dos signos
como se o tempo escavasse
diuturnamente
renovada ferida.

A palavra decantada
permanece ambígua
como o amor
lançado ao abismo.






sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fallujah





















Guelras
e garras
casa a casa
gases
tóxicos
corpos
oxi
dados rolam
em ruínas
ira
que
germina
ódio
óleo
de répteis
decrépitos
bombons
de urânio
para a infância

se não há corpos
na tv
não existem mortos





Os integralesmas


















Os integralesmas
saem de missas negras
verdes como sapos,
inflam os papos
em poses esquerdistas,
mas conhecemos
bem 
a fama desses vigaristas.
Erguem os punhos
onanistas
extenuados,
infartados de retórica.
Passam os poetas
do intimismo à sombra do poder
vaselina com urtigas
no pênis do capital.
Ainda coaxam julgamentos
e pulam sobre verbas oficiais
os integralesmas
com sigmas rizomáticos
camuflados
de artistas
da boca para fora.







Esbregue nos efes





















Fato
fatal
alta
falta
de afeto
afeta
afoga
enforca
em fraga
fôlego
fraco
frisson
fracasso





Colibri no caos
descarta em ângulos mortos
cem gotas de néctar.




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Não hai nem kai III















I

Outrora calipso,
agora memória em lapso,
colapso das horas.


II

Orgulho do gládio,
onde se fixa florescem
gala, gozo e gáudio.


III

Água no quintal.
Ontem a chuva caiu
em cama deserta.


IV

Café da manhã;
mel, pássaros, solidão
e um talvez na porta.


V

Doar-se, doer-se,
danar-se, cão condenado
a não se dizer.


VI

Morri de seus olhos,
de você pela metade
em outra lacuna.


VII

Janela nublada
fecha cortina grená
à melancolia.


VIII

Resíduo inócuo,
junco jogado no barro
de corpo insalubre.


IX

Um sol tangerina
faca de brasas em casca
corta gomo a gomo.


X

Um haicai balança
mas não cai. O bom malandro
não cai de cabeça.


XI

De gala o azul
no céu, anjos e azulejos
amanhecem luz.


XII

Na campina um cão
acende folhas e ventos:
farol nas narinas.


XIII

Acesa a palavra
mais áspera, buscar água
de apagar eclipses.


XIV

Fora de controle
o amor, vestido ao avesso
no corpo que explode.


XV

Soltar o verbo,
os cachorros, os demônios,
voar na língua solta.


XVI

Lágrimas e gritos,
esgrima contra o espanto
mínimo espantalho.


XVII

Pronome - clones
de nomes com carga oculta
no DNA da língua.


XVIII

Os, as, isso, aquilo,
não deixe a dêixis diluir
os mil e um sentidos.


XIX

Abrir um abraço
sobre teu corpo maduro
e fundar um mundo.


XX

A curva final
acesa. Um desenho ainda
sonha na prancheta.


XXI

Talvez amanhã,
agora, quase, nunca,
o amor, a aurora.






Paixão de rei arruinado





















Jucicleia,
não me deixe
na van,
vontade
lotada
de desejos
sem freios.

Caso o coração
se arrebente
nessa viagem
de extremos,
meu sangue
é A+.

Bateria
vazia
derrapa
numa blitz.

Não ligue para os meus pais,
eles pensam
que ainda estou preso.

Quando eu
tomar o morro
de novo
nós no melhor motel.




Polinização

Obra de Beatriz Milhazes























Escrava
de camada de minério,
raiz descalça não alcança
a flor.

Gravado
no ar,
no entanto,
mistério
em botão:
espaço
reservado
a pétalas
e perfumes
Imaginários
da flor,
se flor
houvesse.