quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Não hai nem kai III















I

Outrora calipso,
agora memória em lapso,
colapso das horas.


II

Orgulho do gládio,
onde se fixa florescem
gala, gozo e gáudio.


III

Água no quintal.
Ontem a chuva caiu
em cama deserta.


IV

Café da manhã;
mel, pássaros, solidão
e um talvez na porta.


V

Doar-se, doer-se,
danar-se, cão condenado
a não se dizer.


VI

Morri de seus olhos,
de você pela metade
em outra lacuna.


VII

Janela nublada
fecha cortina grená
à melancolia.


VIII

Resíduo inócuo,
junco jogado no barro
de corpo insalubre.


IX

Um sol tangerina
faca de brasas em casca
corta gomo a gomo.


X

Um haicai balança
mas não cai. O bom malandro
não cai de cabeça.


XI

De gala o azul
no céu, anjos e azulejos
amanhecem luz.


XII

Na campina um cão
acende folhas e ventos:
farol nas narinas.


XIII

Acesa a palavra
mais áspera, buscar água
de apagar eclipses.


XIV

Fora de controle
o amor, vestido ao avesso
no corpo que explode.


XV

Soltar o verbo,
os cachorros, os demônios,
voar na língua solta.


XVI

Lágrimas e gritos,
esgrima contra o espanto
mínimo espantalho.


XVII

Pronome - clones
de nomes com carga oculta
no DNA da língua.


XVIII

Os, as, isso, aquilo,
não deixe a dêixis diluir
os mil e um sentidos.


XIX

Abrir um abraço
sobre teu corpo maduro
e fundar um mundo.


XX

A curva final
acesa. Um desenho ainda
sonha na prancheta.


XXI

Talvez amanhã,
agora, quase, nunca,
o amor, a aurora.






Paixão de rei arruinado





















Jucicleia,
não me deixe
na van,
vontade
lotada
de desejos
sem freios.

Caso o coração
se arrebente
nessa viagem
de extremos,
meu sangue
é A+.

Bateria
vazia
derrapa
numa blitz.

Não ligue para os meus pais,
eles pensam
que ainda estou preso.

Quando eu
tomar o morro
de novo
nós no melhor motel.




Polinização

Obra de Beatriz Milhazes























Escrava
de camada de minério,
raiz descalça não alcança
a flor.

Gravado
no ar,
no entanto,
mistério
em botão:
espaço
reservado
a pétalas
e perfumes
Imaginários
da flor,
se flor
houvesse.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dazibao






















Tatuo
em suas longas pernas
- muralhas da China -
minha desistência
de nômade.
Doravante
serei súdito da dinastia
de olhos ameixas,
escravo das colinas
chinesas
na longa marcha de uma noite.

Atravessei
o rio Amarelo em hipnose
para caligrafar o gozo
em terrenos de seda e cetim
do corpo de imperatriz
lupina
atrás de um biombo
em Xangai.

Quando o sol
chegar à estação central
de Pequim
extraviará a fantasia das palavras
de porcelana.
e o bilhete de passagem.

Nosso efêmero império
sem herdeiros.



domingo, 27 de janeiro de 2013

Rescaldo







α


Bom garoto aquele. Um pouco envelhecido. Os cabelos já grisalhos.  Um cara  cem por cento em qualquer situação, amigo para o que der e vier. Trabalhou a vida inteira, acordava de madrugada e voltava tarde todo santo dia. De tão obstinado conseguiu vencer. Sim, nascera para triunfar, dominar. O grande vitorioso. No entanto, agora, ei-lo prostrado a demonstrar a tranquilidade mais cínica do mundo, como se estivesse a nos escarnecer. Seus familiares acariciam pela enésima vez os diplomas e as condecorações do ilustre barão assinalado com a mesma ternura derramada sobre seus cabelos revoltos. Fora o filho predileto; amor e honra dos pais. O grande homem da família. Nosso querido filho, nosso amantíssimo marido, nosso inesquecível pai, nosso amigo do peito. Ah, foi embora tão cedo. Amanhã, onde aquela camaradagem de tantos anos de vida e aventura? O grande caçador de bandidos, o justiceiro implacável, o policial de ouro... Da pena olhar a viúva: o rosto macerado pelo sofrimento; dor com máscara serena, estoicamente enfrentada. Talvez os inimigos cavilosos denunciem em seus encontros de derrotados a montagem de uma falsa biografia à beira do túmulo. Talvez. Não posso admitir tal possibilidade. O morto foi um grande homem. Ele mesmo não se cansava de afirmar isso. Os jornais noticiam a perda irreparável, estampam na primeira
  

 β 


Barbaridade! Como foi possível enganar dessa maneira? Como logrou despertar a simpatia da vizinhança toda? E aquela fotografia tirada num orfanato, rodeado por tantas crianças, tantos risos ingênuos . O pior de tudo, o seu próprio riso, profundamente comum e largo como se humano fosse. Apenas abutre, bem sei/sabemos. A ave de destruição que mergulhava sobre nossos corpos para reduzi-los a cinzas. Às vezes, nos vomitava vivos, embora já desprovidos de rumo. A gralha que fabricava nos subterrâneos da mente a nossa loucura. Aquele riso em seus lábios assemelhava-se a uma fotomontagem. E o grande ódio. A grande frustração de sabê-lo vivo e ativo. A grande revolta de suportar a sua momentânea vitória, o seu canto de galo. A imperdoabilidade de não tê-lo matado com as minhas próprias mãos. Suprema tortura – o seu derradeiro golpe baixo – o patético de sua fuga. Ai! Como o odiava! Com que fúria! Com que rancor! Quanta mágoa represada! Quanta acumulação intestina de dor e sede de justiça. Cheguei a pensar que enlouqueceria como tantos e tantos, sobreviventes ou suicidas, mas o ódio nos torna resistentes, capazes de suportar todos os horrores do inferno na esperança de uma desforra, de vingança implacável. Não adianta o companheiro me julgar, me acusar de desvio personalista, fraqueza psicológica, falta de estrutura, disso e daquilo, porque só  meu coração permanece pela metade. A

  
 α 


página comentários elogiosos ao seu desempenho. Não quero restringir-me ao aspecto laudatório. Não. Posso falar com clareza, apesar da perda, do assédio de ideias desencontradas e de lembranças confusas. Meu amigo. Verdade que alguns nunca perdoaram. O morto era um homem com a mesma firmeza e serenidade estampadas no rosto da mulher que o amou (amou mesmo?). De uma simplicidade cativante, possuía inata capacidade de fazer amigos e ser benquisto por comunidades inteiras. Um homem com a forma de outro qualquer: domingueiro, carinhoso com a mulher e os filhos, amante de uma peladinha nas horas vagas, de praia, bons filmes, passeios ecológicos com a família. Por que assacavam contra a sua honradez acusações tão torpes e infundadas? Entre nós, velhos amigos, quantos porres, feijoadas, churrascos, loucuras, conversas madrugada afora, mútua degustação de pequenos prazeres, amantes, vícios da intimidade. Sempre ao lado dos homens, da lei, da ordem, da segurança – apesar dos medíocres e dos rancorosos. Prestativo, bom, corajoso, nunca se furtara aos trabalhos mais duros. Aliás, disposição não lhe faltava; encarava qualquer barra em qualquer lugar. Por isso não lhe perdoaram: o desassombro, a macheza, a virilidade, a inteligência instintiva, a sadia brutalidade dos realmente fortes. Puro, invencível e primitivo como um deus guerreiro, um rei bárbaro. Colocava toda a sua força e astúcia em defesa da família, dos humildes, do governo, sem o qual só podem existir anarquia, baderna, desemprego, conflitos, agitação. Os inimigos e sua fraqueza revoltante.  Bando de maricas.


β 


grande lacuna por cima de tudo, pairando sobre todos os projetos futuros, embora o companheiro diga que a luta continua, e eu saiba que resistiremos sempre, até a nossa vitória definitiva, choro por todos, perdoe ou não, sangro por tantos, contudo Roberto é tudo agora, nesse momento: a humanidade toda, todas as estrelas, tudo, tudinho. A sua muda presença está por trás de todos os meus gestos e palavras, por todos os cantos do apartamento. Gostaria de reler pela milésima vez suas cartas e poemas. Impossível. Destruíram todas as ligações, bloquearam todas as estradas do passado, suprimiram laços de fé e amizade, criaram cadáveres e loucos, apagaram, mesquinhamente, o passado, subtraindo marcos e habitantes. Como reconstruir a normalidade do cotidiano, reconquistar a simplicidade das coisas, arquivar amarguras e aniquilamentos, quando um conhecimento invulgar de sombras, fantasmas e pestilência, irremediavelmente adquirido, recobre a pele dos acontecimentos? A memória recompõe Roberto de modo incompleto: reconstitui o rosto parcialmente iluminado. Recita, gaguejante, palavras quase inaudíveis, introduzindo grandes espaço vazios em seu discurso transbordante de amor e vitalidade. A memória se exaure em inacreditáveis mundos submersos nos porões da perversão e da degradação moral. Ah! que o companheiro me perdoe. Não pretendo ostentar marcas, transformá-las em medalha, entenda bem. Quero tão-somente dizer que essas feridas são fendas incicatrizáveis, entenda bem. Permanecerão integradas à minha história, encarceradas eternamente na alma. A carne queimada  viva  continua


α  


Os inimigos e sua covardia, escondidos no meio do povo, protegidos por batinas, camuflados em casas miseráveis. O choro vergonhoso de suas famílias nefastas. Nojo. Fraqueza. Fanatismo. Ele me ensinou a desprezar pombas e carneiros. Tornou-me lobo. Não sabiam da amizade que despertava em gente humilde, abandonada à própria sorte. De uma cerveja em um botequim mambembe extraía um grande amigo. Sim, quantas vezes não pescamos desse modo. Quantas discussões: a existência de Deus, a fatalidade da tortura durante a guerra, o destino do homem, o sentido da história, a necessidade da intolerância e de leis rígidas e implacáveis, sobretudo a rapidez e eficiência das informações. Ele se julgava caçador, aventureiro, desbravador. Eu tentava aprofundar-me, pescador, almejando requintes estilísticos, sofisticação, método e planejamento. Ele, apaixonado pelo trabalho; eu, um técnico rigoroso, sem envolvimento emocional, procurando jogar no time vencedor. Infelizmente nunca consegui superá-lo. A ferocidade de seus atos desarticulava qualquer sedição. Verdade que guardo secretas mágoas. Sei que foi promovido graças ao meu sacrifício. Sabia dos meus recalques e receios, tenho certeza. Meio bruxo. Seus pais ficavam tão felizes com sua extrema dedicação. Surpresos com o falecimento rápido, inesperado, patético. O próprio morto jurara morrer em combate com duas quarenta e cinco nas mãos, a alma cheia de ódio. Mas a morte tem passos furtivos, sua presença sempre nos pega desprevenidos. Seus pais mergulharam num velho álbum de fotografias. Nunca conseguira imaginá-lo criança, envolvido em  artes  de bola,


 β

aberta e quente. Fala, geme, grita, explode ainda. A minha língua guarda o gosto do cobre, do cobre que alimentou o meu suplício em voltagem insuportável, do fio que penetrou amargura em minha vida e ainda não saiu da minha insônia, latejando, pingando, esvaindo-se no suor noturno sobre uma cama vazia de..., sobre um quarto vazio de..., sobre um corpo vazio de..., que caiu, porra, ao meu lado... que caiu quando gritar já não era possível e só a insensatez era capaz de manter a existência. A nossa capacidade de suportar o sofrimento é quase infinita, só é superada pela habilidade do ser humano em infligir padecimentos ao seu semelhante. Não posso esquecer a noite eterna que se abateu sobre os meus passos, as pancadas secas e ritmadas, o ranger de manivelas e portas, as pragas e as gargalhadas, o cheiro de carne humana sendo queimada por maçaricos, os bastões metálicos penetrando, violentos, corpos desfalecidos. Preciso jogar todo esse sangue ainda fresco pela janela, fechar a chaga que me dilacera, arrumar novos sentidos. Porém é tão difícil sem a energia e a coragem de... Que o companheiro me perdoe. Puta que pariu, meu amigo! Eu sei! Eu sei! Eu sei! Não precisa repetir as mesmas palavras zilhões de vezes. Porra! A revolução não virá só da cabeça, meu irmão. Brotará do coração, do estômago, do pênis, da bunda, da xota, dos olhos, do nariz, dos ouvidos, dos pulmões, da pele, das palavras de paixão e ira. Não posso impedir a revolta cega, surda e muda contra a engrenagem a impulsionar a insanidade dos torturadores. Também não posso deixar-me reduzir a  um espelho...  ao sol  que


α


boné e bagunça. Será possível? Não seriam aquelas fotos forjadas para preencher a supressão de afeto e ternura numa criatura voltada ao extermínio dos adversários? Será possível a existência de uma simples bola de gude ou de um pião em mãos sequiosas de berros pavorosos e expressões de angústia sem par? Como conseguiu tolerar-se menino? Seus amigos de infância estarão vivos? Onde? Fora a verdadeira adoração aos pais e à família, onde caberia amizade autêntica sem laços de ofício ou de interesse? Contudo morre um amigo e a realidade permanece a mesma. Sim, amigo, por que não? Amizade nascida de ofício comum: comunhão. Os inimigos não morrem nunca. É preciso aumentar o trabalho, dar-lhe mais consistência. Somos poucos. Uma pequena elite preparada para salvar a sociedade do caos e da destruição. Somos criaturas raras, eleitas pelo destino para abater os criminosos ateus. Lutamos pela preservação do homem e não hesitamos em sujar as mãos. Garantimos a normalidade, a felicidade, o bom senso, a tranquilidade dos lares, o sadio equilíbrio entre a tradição e o progresso, sem tumultos e conflitos. O morto advogava essas ideias, lutava por uma causa nobre. Agora, precisamos dar prosseguimento a todos os projetos de controle e de combate a elementos desagregadores do sadio tecido social. Os degenerados não desistem facilmente. São indivíduos perversos, perdidos, escravizados às teorias subversivas. Os rebeldes não se entregam. Por isso construímos masmorras e aparelhos especiais desenhados para quebrar-lhes a resistência, obrigá-los à sórdida delação,
  

β


brilhou, iluminou e incendiou-se ao tentar espalhar as chamas de um novo tempo. A memória da sua voz hipnótica vagueia em meus ouvidos empobrecidos por mãos selvagens. Seus gestos ainda acontecem bem diante dos meus olhos. Sua crença inabalável na redenção da humanidade ainda permeia meus pensamentos. Ele ficava nervoso, vermelho, gaguejava, gesticulava excessivamente, xingava-me. Depois das explosões cobria-me de beijos, enquanto as suas mãos aflitas escorregavam delícias sobre meu corpo, tentando recuperar uma discussão perdida. Abraçados e calados, frente a frente, tentávamos desvendar o mapa de auroras desconhecidas, rascunhávamos um júbilo coletivo, imbuídos de reflexões e ousadia, carentes de lucidez e organização. Ah, as mãos que te supliciaram não foram paridas por mãe humana. Foram mãos acostumadas a quebrar brinquedos, a torturar animais, a destruir plantas, a esmagar o próximo com os pés desde o berço. Nunca descobriram um louva-deus na parede. Nunca acariciaram um gato. No entanto, fora do ritual satânico, pareciam pertencer à galeria dos homens comuns. Fora dos templos da nossa agonia, possuíam amigos numerosos, parentes, passado, aspirações, respiravam virtudes, bebiam comemorações, trepavam. Podiam andar com naturalidade pelas ruas, fazer compras, mexer com as mulheres, ir à missa, fazer hora. O corpo de cada torturador semelhante ao rosto de... boca, nariz, olhos, faces, cabelos, pernas, tudo igual. Pessoas, para incautos que os olhassem de longe com displicência ou gratidão; serpentes do mal absoluto por dentro, se contemplados no  intervalo  entre ação e


α


embaraçar suas estratégias defensivas, disseminar a desconfiança, minar os princípios, corrompendo a crença depositada em suas pestilentas doutrinas. Lembro-me de muitas quedas e confissões que levaram ao suicídio; delações que estraçalharam falsos heróis, até então dedicados de corpo e alma a uma causa inglória. Sim, somos o lado do mais forte, da lei da selva, dos negócios, das negociatas, dos falcões e das falcatruas. Quem atravessa o nosso caminho é executado. Precisamos acreditar nisso. Não posso raciocinar como outros adeptos que consideram que o fundamento é o dinheiro, o bom salário, o conforto, as facilidades. Não. Isso não é justificativa. Os inimigos não merecem piedade. Precisamos de mais verbas. Enganam-se as altas gargalhadas dos bares, entre rodas de desfibrados anfíbios, crentes que já não somos importantes e, em breve, seremos desativados. Ninguém vive sem a nossa presença. Não podem nos deslocar para serviços meramente administrativos nem arquivar nossas práticas em aposentadorias forçadas. Todos precisam dos nossos préstimos. Somos um peso que têm de carregar, quer queiram, quer não. Somos a garantia da continuidade da produção, dos investimentos, da circulação de riquezas, da permanência do lucro como o fundamento da sociedade. Azeitamos a máquina mercante para que tudo transcorra nos marcos da normalidade. Sei que somos acusados de desvio da finalidade para a qual fomos criados, de extorsão de familiares de nossas vítimas, de chantagens econômicas e sexuais, de prática sistemática de butim. Negra calúnia. A pequena fortuna do falecido formou-se em troca de  extensa


β


consciência, o sombrio interior a abrigar toda a criatividade dos demônios – insuperável repertório do pânico. O sofrimento foi tatuado em nossos corpos com um método e um rigor impessoais,  burocráticos, copiados de centros repressivos mais avançados: questão protocolar com o sangue dos nossos sonhos. Tudo concebido nos moldes de uma liturgia sinistra, auxiliada pela força de um poderoso e onipresente aparato a sustentar desaparecimentos e supressões em todos os recantos do país. Nossos sorrisos banidos em velhas fotografias três por quatro. Biografias de exemplares inimigos públicos falsificam acontecimentos e trajetos. Sentenças forjadas em tribunais formados por formas extremas de servilismo determinam a extensão de nossa sangria. A imprensa inventa, espalha e amplia nossos fictícios crimes e taras. Nosso isolamento cósmico. Talvez, depois de uma “sessão espírita”, o velho esmurrador brinque com o netinho favorito ou afague, afetuoso e de coração mole, o cãozinho de estimação. Talvez a esposa reze por sua alma, temerosa de que bandidos desalmados assassinem marido tão dócil, tão carinhoso e destemido. Talvez tenha pena de seus familiares, da grande mentira pregada a todos, da sujeira escondida com cuidado nas profundezas de seu espírito enfermo. Aqueles monstros pareciam humanos. Possuíam caras de pai, avô, filho, marido, amante, torcedor do Flamengo, jogador de sinuca, boêmio... Há detalhes, porém, comprometedores: o tique nervoso dos olhos, o medo guardado no menor gesto, a bebida e as drogas afogando a revolta, a impotência diante de... mudo, de boca trancada em um corpo aberto. O


α 


série de favores, nebulosos, é certo, mas sem qualquer relação com as generosas verbas destinadas ao “serviço”, seja oriundas do governo, seja provenientes dos amigos financiadores. Se um próspero industrial, um banqueiro poderoso ou um político de prestígio precisavam limpar o terreno para ampliar os negócios, que mal havia em cooperar para o êxito dessas iniciativas? É verdade que gente inocente caía na rede. Infelizmente esse é o preço do jogo. A tarefa suja historicamente sempre foi recompensada com fatias de poder. Todos recorrem à nossa experiência. Devemos ensinar às novas gerações as lições deixadas pelo pranteado morto. Arrebanharemos novos discípulos. Temos de mudar de tática, dissimular, mentir, enganar, confundir, manipular. Deixemos nossos inimigos cantando o nosso fim pelas ruas e praças ébrias de liberdade, deixemos. Hoje também somos democratas. Somos invencíveis, eternos, absolutos. Ninguém pode nos dominar ou prescindir dos nossos artifícios. Podemos assumir mil formas, instalarmo-nos como um vírus no seio de qualquer democracia. O morto sabia disso.


β


ressentimento de quem reconhece a superioridade moral do inimigo, a vergonha de não ganhar a guerra sem os recursos odiosos da traição, da mentira, da tortura, do sequestro de cônjuges e filhos, dos assassínios, do horror. A ultrajante humilhação de não poder morrer por uma causa justa como... Sim, nunca pôde fugir ao reconhecimento insuportável da gigantesca diferença entre a legião de assassinos que comandava e todos os outros indivíduos da sociedade. Imensurável distância entre a entrega de vidas em vermelho no chão da ágora transformada em jaula e as mordaças estendidas por mãos sequiosas no chumbo da indiferença sanguinolenta. Reconstruiremos pedra por pedra o caminho da luta. Outras utopias incendiarão novas auroras. Novas canções vermelhas serão tatuadas nos muros da atonia, do consumismo, da vida transformada em espetáculo. As pessoas, cansadas da mídia, da repressão, das leis, dos governos, irão se levantar nas ruas, derrubar os muros e reconquistar a ágora. Os povos não podem ser reduzidos a commodities humanas. Somos a rua, somos a primavera, somos a vida. O morto sabia disso.




Percurso




Do útero
ao túmulo
tudo
é tumulto.



sábado, 26 de janeiro de 2013

Entreforapoema





















Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são feitos
fetos

Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são legais
abortos

Vou fazer um poema
não vou fazer um poema
poemas não são capitais
pocilga

poemas não rendem
poemas não vendem
poemas não se rendem



A carência é a mãe do contemporâneo

Tela de Max Ernst















Nada zen
o mundo
cada vez
mais
sem



Haicai




Um sol tangerina
faca de brasas em casca
corta gomo a gomo



Oswald envenenado


















Apertadinha
a palavra caiu
fora da linha,
bateu com
a testa
no concreto,
sílabas
sem sentido
no chão,
letras
aos saltos
no abstrato.

Toda escrita
cai em becos 
ou buracos.

Texto,
comida de ratos.



Cica dos oitis























     Um contrassamba para Hélio Oiticica


O sol
cica dos oitis
seca redundância
um gole
de parangolé
pinga
em capas de poesia possessa
balé marginal
sacolé de anarquia
parangolonge da Mangueira
comichão de frente
ala de balangandãs e barangas
penetráveis perfuratrizes da percepção
múmia previsível
colisão dos corpos da cidade
em esbórnias bólides
Hélio Oiticica
de fantasia toptoptropicalista
na bacia das almas
com Cara de Cavalo e Mineirinho
dois amigos
incorrigíveis
: caçados vivos ou mortos
todo dia





Lições de piano
























Dois anos
amarrado
ao piano 

tecla errada?
de castigo
cascudo
reguada

a professora
rainha de sustenidos
regia
mínimas
colcheias
fusas
confusas
compassos de cortesã
suítes de Mozart
em motéis dissonantes

de ouvidos caolhos
achei melhor
levar a vida
na flauta

até hoje
o que meus erros
tocam 
é música



Fôlego



















Res
     pirar
parar
de ser
rês
renascer 
rainha



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Poemas na Revista Eutomia




A edição atual de Eutomia - Revista de Literatura e Linguística, da Universidade Federal de Pernambuco, editada por Sueli Cavendish traz nove poemas meus. O tema da 10ª edição da revista é Teoria e Prática da Tradução Literária.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sinais de fumaça





Essa história me foi contada por um velho lápis à beira da morte.

“Há muito tempo atrás, durante uma revolução na escrita, um nobre e presunçoso til apaixonou-se por uma vírgula desconhecida. Obcecado pelas pernas curvas da bailarina da linguagem, o til atrevido rompeu com os melhores amigos da alta sociedade: os acentos grave, agudo e circunflexo, além das aspas, irmãs siamesas. Seu amor por aquela criatura da classe baixa,  que vivia misturada a tipos inferiores, como pontos, travessões, hifens e reticências, transformou-o num pária a exemplo do velho companheiro trema, banido por decreto a exílio eterno.

Apesar de viverem em espaços diferentes, a paixão apagou as distâncias; peles arrepiaram-se, bocas selaram promessas, sonoridades do gozo vazaram rios noturnos. Mas o coração sempre oculta um saco de veneno em um dos ventrículos. A vírgula passou a cobrar do til mais presença em sua vida, queria sentir o fino perfume de suas palavras, a cabeleira em ondas do jovem aristocrata pulsando sobre os seus seios ofegantes. O til, com voz fanhosa e enfadonha,  sempre alegava excesso de trabalho ou problemas na mucosa nasal que quase impediam a respiração.

Alguns meses transcorreram pesados, perdidos, a proximidade fazia água, o til raramente aparecia. Até que, numa esplêndida madrugada de outono, apareceu todo animado na linha onde a vírgula morava. Ao chegar contemplou de queixo caído a cena que o deixou irremediavelmente amargurado: um ponto movia-se como minúsculo demônio por cima da vírgula adorada.”


sábado, 19 de janeiro de 2013

Bala de tamarindo

















No tempo de menino
o mundo era bem menor
que bala de tamarindo.

O paladar 
ainda soletrava
outros sabores da língua
cega ao dissabor
de saber
que sibilinamente
o azedinho doce
viraria vinagre.