quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quaterno

"O suicida", 1877, tela do pintor Édouard Manet (1832-1883)




I

Caminhava apressado por uma das galerias da Praça Saens Peña. Havia uma turbulência em seus gestos, um vazamento de rancor e orgulho. Rapidamente as nuvens escuras desapareceram. Pôde ver, então, um asséptico espaço subterrâneo de guichês, corredores, escadas rolantes e roletas. Na realidade, entrava inconscientemente na área de lançamento de um voo cego, tudo ali se constituiria nos registros físicos do embarque na área cinzenta dos impulsos, do descontrole, da perda de rumo.

Próxima parada – São Francisco Xavier; próxima parada – Afonso Pena; próxima parada – desespero; próxima parada – o Inferno. Desembarcou como autômato na estação da Central. Voltou a contemplar as nuvens, agora menos carregadas, atravessadas em pequenas fendas por tímidos raios de sol. 

A calçada do Campo de Santana era insuficiente para os seus passos pesados, largos, presos a tantos tropeços e desencontros. Os camelôs espetavam nos ouvidos maravilhas de produtos. Até que surgiu, em frascos minúsculos, sem qualquer destaque no colorido das mercadorias, a solução para o seu mal. Não parou. O medo obrigou-o a olhar para diante. Ultrapassou o vendedor de bermuda vermelha, camiseta do Flamengo e óculos escuros. O som, no entanto, permaneceu em seu cérebro como farpa: “elimina qualquer rato”, “tiro e queda contra aquelas ratazanas que invadem a sua casa”, “leve três e pague apenas um”. Tremor nas pernas, uma sensação desconhecida adormeceu a língua, quis continuar, não quis continuar. Voltou. Dirigiu-se ao ambulante com uma estranha inflexão na voz -  “Amigo, eu quero quatro” - como se estivesse num confessionário.

Ligou para Odete. Ninguém atendia. Insistiu. Novamente no metrô, de volta a Saens Peña. Na Tijuca. pegou um ônibus rumo à Barra. Sentou-se ao lado de uma jovem de óculos infantis e lindas pernas morenas. Não tirou os olhos. Voltou a ligar. Odete atendeu: “Já falei pra você não me procurar!”, furiosa, do outro lado da cidade. Ele não possuía nenhum argumento, só ameaças, a última: “Você vai se arrepender”. Ela desligou. Ele desceu na Floresta da Tijuca.

Nunca entrara no parque. O caminho era longo. Sem qualquer planejamento, as pernas simplesmente avançavam, passavam ao lado de caminhadas de casais, jipes com turistas, viaturas da segurança, risos de crianças. Mais à frente, pisavam no sinteco carcomido do sala e quarto no Bairro de Fátima, cruzando os zigues-zagues de Odete. Tropeçavam em frases com toneladas de pressão, uma atmosfera poluída por contas, cartas de cobrança, carências, empregos perdidos, cursos não concluídos, promessas não cumpridas. Irresponsável, podia ler pela milionésima vez a última palavra de Odete, misteriosamente escrita no chão pelas folhas caídas de árvores centenárias.

Íntima correlação entre a subida do caminho e a ascensão da nódoa cinzenta em seus pensamentos. Ingressava na faixa onde só se ouve o som da mata e dos bichos, reconhecia, no verde, o deserto habitual. Sentiu que não venceria a distância, exausto, quase no topo. Lembrou-se dos frascos.

Anexada ao boletim de entrada no Hospital  Sousa Aguiar, foi encontrada esta declaração: “Odete, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


II

Abriu com dificuldades a porta da quitinete caindo aos pedaços onde vivia, próxima ao Largo do Machado. Bia ainda não voltara da casa de Luíza. Sacolas, malas, trouxas, caixas de papelão pareciam pregadas ao chão, muda resistência de objetos e roupas da vida em comum. Tudo enevoado agora, rachaduras nas fotos, olhos inchados explodindo retratos de noivado e casamento: rascunhos de uma felicidade não escrita até o final da página. Como dados enlouquecidos, as palavras da mulher de sua vida estouravam sintaxe e sentido. Um mundo desordenado fazia os móveis do conjugado levitarem na sala abarrotada de acusações mútuas. Perder a mulher para outra  tornava-o menos que um homem. Diploma de fracasso completo, com louvor, um ph.D em desastres amorosos andando em círculos no interior de um abrigo reduzido a hospício. Nunca poderia pensar. Luíza tão delicada, tão educada, tão feminina. Viagens à metade do mundo. Cursos em Londres, ex modelo, lista de ex namorados. Assediada, desejada por todos. Logo ela. Ele chegara a pensar que...

No minúsculo apartamento, o banheiro assemelhava-se mais a um túmulo, porém dava-lhe a segurança de refúgio, pausa nas discussões e disputas. A camiseta do Iron Maiden no porcelanato caramelo, a calça jeans acinzentada jogada no porta-toalhas, ao lado das meias imundas e furadas. Sabonete barato suspenso nas mãos, enquanto pisava o único tênis que lhe restara, voltou-se para dois seios ofegantes à frente do acendedor do chuveiro a gás; olhos usurpavam o lugar dos bicos e das aréolas. Os mamilos sussurravam falsas delícias, obscenidades, numa linguagem sufocante. Sobre o balcão do banheiro, metade do pó imobilizado.

O número da besta, sim? Esquecera o número do celular de Bia. Não, não, a besta era Luiza. Tomara-lhe a mulher, o apartamento, a vida. Sua carne viva malhara desejos noturnos. Luiza selvagem e arisca. Perfume e perfeição dos peitos, bunda de calendário de oficina. Quanto desejo, quanta deriva. Investira todos os seus recursos de Don Juan falido, acenara com tudo que não possuía, oferecera plurais sem majestade e superlativos baratos. Luíza firme, uma madre Teresa de Calcutá, puro cristal. Traíra! Filha da puta! Joguinho safado por trás das costas. Ela e Bia, provocação, deboche.

Esquecera o bloco de rascunho na sala. Sorte contar com fita crepe bem larga. A caneta falhava, como ele, mas daria para o gasto. Mais uma carreira sobre a pia. Ao levantar a cabeça viu, no espelho manchado de velhice, Luiza atravessar a parede, nua e deliciosa.
Exultou. Em vão, logo após Bia cruzou as pastilhas da mesma parede com todo o esplendor de seu corpo moreno. As duas se beijaram e se amaram em um banho de deusas sob os seus olhos agachados no canto mais fundo do banheiro.

Alguém acrescentou uma folha amassada ao prontuário do Hospital Miguel Couto, nela se podia ler, em caligrafia confusa, declaração pungente em fita crepe colada no papel: “Luiza, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


III

Entrou num táxi em frente ao prédio da Maison de France, onde passara a tarde toda lendo um livro de Michel Déguy sem ter compreendido uma linha sequer, o pensamento todo em Alana, irrompendo imagens, quebrando versos, rasurando páginas. 

De volta ao amplo apartamento na rua Toneleros, em Copacabana, jogou-se sobre o sofá verde musgo em L na sala com dois ambientes. Mais um final de semana sem a mulher, perdida em Búzios ou Angra, sequer sabia o paradeiro certo. Nas últimas semanas, o que ela lhe dizia chegava pastoso e confuso aos ouvidos. As palavras tinham pontas alongadas que desenterravam um passado desconhecido, anterior à fila de cinema onde a conhecera.

Entrou no escritório amplo com três estantes entulhadas de livros. Alana perdida para eternas pesquisas, simpósios, congressos, cursos. Professora universitária em pastas diversas sobre a escrivaninha. De um retrato, ambos em sorrisos abertos, saía tímida fumaça de felicidade. Sob um dicionário de francês um comentário aos versos que ele escrevia. “Bons, mas frouxos [...] criativos, espontâneos [...] pecam pela ausência de trabalho [...] grandes soluções anuladas por erros gramaticais e fórmulas grosseiras [...] falta de leitura, péssimos hábitos [...] inadmissível preguiça intelectual [...] anárquica irreverência, sim, mas jogos de palavras sem sentido, trocadilhos infames rimados [...] tragédias pessoais não transformam ninguém em poeta razoável, apenas revelam experiências comuns a milhares de outros indivíduos”.

De volta à sala, sentiu agulhadas nos ouvidos. “Você foi o maior erro da minha vida”. Alana enlouquecida ocupava todos os cômodos do apartamento, enquanto entre lágrimas, vermelha quase no limite de um AVC, soltava uma legião de frustrações. “Te peguei na lama, seu filho da puta, e você só sabe beber, arrumar confusão e me deixar sozinha, seu poeta de merda”.

Fechou e abriu os olhos para espantar o demônio da memória. Quis sair, lembrou-se de que acabara de entrar por já não ter para onde ir. Levantou-se extraordinariamente lúcido e pesado. Foi para a varanda.  Observou besouros velozes na rua e móveis pontos colorindo as calçadas. Viu a cortina de prédios do outro lado da rua, gente em outras varandas, um casal trepando no terceiro andar em frente.

De repente, uma frase antiga de Alana passou voando bem à sua frente. Em seguida, a mulher apareceu amorosamente nua e suspensa, pedindo perdão e chamando-o para uma reconciliação definitiva. Ele não hesitou, seguiu em frente.

Entre as anotações da ficha de entrada do paciente, em uma folha de caderno universitário pautado, com margem dupla, podia se ler a lápis o último parágrafo de um texto todo rasurado: “Alana, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


IV

Saiu sonolento do sítio em Vargem Grande. Ligou o carro e apagou a sanidade. Louca e acesa a seu lado, Tininha falava pelos cotovelos.

O dia quase amanhecia quando chegaram à vila numa ruazinha perto da Praça Seca, em Jacarepaguá. Banho tomado, a mulher apagou-se exausta. Ele permaneceu zonzo na recém comprada poltrona reclinável azul-marinho, motivo de tanta discussão entre os dois. A porta da casa permanecia escancarada como um convite. Não tinha forças para se mover.

Já estava cansado, passara dos cinquenta. Tininha vinte e cinco anos mais nova. Pior, comportava-se como eterna adolescente. Patético, tentava acompanhá-la mesmo em modo grisalho. O viço do corpo que tanto o encantara começava a se apagar precocemente. Cada vez mais louca e viciada, Tininha atingira o estágio da total perda de controle. Cada dia mais impotente, não conseguia segurá-la, sentia-se uma nulidade, acompanhante mudo da decadência, personal trainer de catástrofes.

Voltou ao quarto. Não encontrou a mulher. A cama permanecia perfeitamente arrumada. Ninguém nela se jogara. No banheiro, tudo seco, nenhuma toalha molhada. Saiu para ver o carro. Nada. Lembrou-se, então, de ter deixado o velho Gol grafite na oficina. Voltou profundamente angustiado, sem encontrar explicações para o que estava acontecendo.

Abriu uma garrafa de uísque para se acalmar. Tininha surgiu com um copo e um sorriso estranho. O peignoir aberto mostrava os seios generosos parcialmente cobertos pelas pontas dos longos cabelos molhados. Sentiu o perfume de outros tempos balançar novamente o seu destino. Todas as mulheres desfaziam-se da carne para se transformarem em aparições em sua vida. Nunca conseguira construir laços, todos os caminhos amorosos deixavam-no no pântano mais próximo e mais fundo. Todas as vozes só se aproximavam para envenenar a alma, demolir afetos, devastar a cidade interior. Lutou para desvencilhar-se dos braços ainda roliços, repletos de marcas de picadas, daquela morena mignon de beleza capaz de mandar qualquer um para o inferno. O rosto diabólico de Tininha tirava-lhe o fôlego. A cruel devoradora de seus últimos dias pisava o seu abdômen com lâminas nos saltos, ajoelhava-se sobre o tórax enfraquecido, enfiava-lhe a língua bipartida nos ouvidos. 

 Refeito do assombro, deu-se conta do estado alucinatório anterior. Além dele, ninguém na sala. Estava com o telefone nas mãos. Ouviu com atenção de colegial todas as instruções da operadora. Largou o aparelho, decidiu-se por um bilhete final. Equilibrou-se num gesto de extrema determinação até chegar à cama. Abaixou-se lentamente. Pegou uma caixa de papelão de algum Natal passado que, agora,  servia para esconder a pistola Glock calibre 380, em fibra de carbono fosco, carregador de 16 tiros.  Abriu-a com ternura na tentativa de ingressar em outra caixa, bem maior e definitiva.

Ao procurar, entre tantos documentos, o formulário de alta do paciente, Duília, auxiliar de enfermagem do Hospital Lourenço Jorge, deixou cair uma folha meio rasgada em que se podia ler declaração única e inesquecível: “Tininha, nunca conheci alguém como você. Passei toda a minha vida à deriva, me decepcionando aqui e ali, totalmente perdido. Não há caminho sem a sua presença. Fiz tudo o que podia para aguentar o tranco, mas não deu”.


ποίησις

La siesta, de 1925, tela de Joan Miró
























A poesia não existe.
Existe
a exaustão
de procurá-la
às cegas,
a esmo,
garimpo de miragens.

Todo poema
é escombros;
as palavras,
pegadas,
marcas na terra
do nada,
peso no piso
de páginas.

A poesia
veste-se de esquivas,
mas com suas rendas de rasuras fugidias,
suas miçangas de espuma
transforma terrenos baldios, lacunas e reticências
em cidades.

A poesia não existe.
Nada segura
a aventura de inventá-la.


Frutos do mar





Chegou tenso e com uma cor esverdeada no rosto ao restaurante à beira-mar. Duas baleias marcavam duas da tarde no relógio azul além areia. Pôde vê-las atrás das ondas e da cortina de atletas e ciclistas na pista da avenida Atlântica. Nuvens pesadas eram rasgadas pelo sol, os trapos cinzas se desmanchavam preguiçosamente no varal do horizonte em reconstrução.

Olhos pregados na biografia de Marighella quando, no meio da décima linha da página 356, Lilith emergiu da piscina dos sonhos perdidos. Trazia uma harpa de argila e fios de ouro abaixo de seus olhos de tempestade. A intensidade do olhar lançou areia e memória à paralisia do leitor atordoado. Lilith sentou-se amistosa, palavras soltas ao vento, direta e incisiva, sacudindo os cabelos e a vida do homem de óculos tortos. Ele nada sabia sobre as fogueiras secretas que nela nunca cicatrizaram; míope e desatinado, ampliara por cegueira e falta de gentileza o próprio deserto, cortara em finas fatias camadas de afeto, polvilhando-as de sal e luto. 

Alojados um frente ao outro, após uma longa pausa e um tremor na língua, o homem decidiu-se: – Garçom, por favor, traga em duas bandejas de prata os seios de Penélope e a cabeça de Helena de Troia. 

Então, Lilith, com astúcia de assassina, voltou-se em direção ao mar para ver, comovida, o navio de Ulisses afundar lentamente. Pudesse olhar em outra direção, teria observado dois olhos em escombros afundando-se nela até tocarem o céu ou o chão.

sábado, 24 de novembro de 2012

A maldição de Sísifo




























Toda sílaba
é um sim ao suicídio
nos lábios
da última canção.

Inventar palavras
para alongar
o silêncio de Sísifo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Invasão 2,25%















Sem
e com,
vou por
e contra.

Aço
e flor
em pântano
ou no Atacama.

Talvez
e sempre
o nada
e o infindável
no fundo
ou fora
de prumo
e da hora.

Vou ficar
e não vou ficar
para levar
meu barco
a uma página
em branco
ou ao espanto
do mar
onde nadam todos os nomes.


Horrogramas

Crianças em um acampamento palestino
















Bombas de fósforo
sobre Gaza.
Robôs e clones.
Mísseis
de precisão milimétrica.
Iron Drome.

E a ONU
(como no samba
de Sérgio Ricardo)
me dá
sono sono sono.

Ah, sim, se a OTAN
declarou zona
de exclusão aérea
na Líbia,
Israel se exercita
na zona
de diversão aérea
da Palestina.

Quem foi o
louco
que escolheu
um povo
e abandonou
todos os outros?


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

Antídoto

















O riso,
como a vida
e a arte,
surge do nada.

Um pouco de
ar
para não acabar
estátua
esparzindo mudez
em redomas opacas.

O riso, compulsivo destino.
Talvez não se levar
a sério
seja o único remédio.

As dores de homem,
o sorriso de menino.

Apagamento



























paz
por afogamento

alcançar
o Nirvana
por inércia

cair
na terceira sílaba
da palavra
eu

decepção,
o verbo decepar
em todos os modos do futuro

especular
olho explodindo espelhos

anoitecer
em branco



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Estipêndio


























Todo tributo
injusto
peso
da tribo
em excesso
ao indivíduo

Estupendo
imposto
da presa
ao predador
coletivo

Paga-se
alto preço
para apagar-se
vivo.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Questão 325 (ANULADA)





Comente o efeito de sem sentido nas palavras e expressões entre aspas no texto.

Use lápis 2B, régua, compasso, transferidor, máquina de calcular e bússola.

Naufrágio como “deriva” não em oceano, antes sinuoso esgueirar-se entre becos e luas metálicas. “Talvez Dinamene” no fundo, talvez mil sereias à frente, talvez o tesouro dos incas. Quem sabe escombros de barcos piratas no mapa de Tortuga, restos da invencível armada ou barco viking a caminho da América pré-colombiana, navios fantasmas? Naufragar sem gritos no convés, sem drama secreto, nenhum pânico no olhar, sem a reação instintiva de correr para a sala de armas, sem invocação a Netuno.  Guardar tragédias e assombros apenas para as páginas da História trágico-marítima, publicada por Bernardo Gomes de Brito em 1735-36. Naufrágio é mergulho interno, íntimo movimento de quem se aventura em “linguagens inavegáveis”. A mais funda herança lusitana em ondas nos “azulejos azuis do peito”.  Líquido e fugidio conceito, naufrágio também é a minha “queda” dentro dos seus olhos suspensos em “nuvens de lâmpadas queimadas”. Você que é tão céu e oceano. Não se necessita de margens, portos, cidades, barcos ou pranchas de surfe para que a tempestade se arme. Nenhum naufrágio possui a segurança de um fundo, que lhe forneça destino ou rumo. Naufrágio é toda a esperança de abraçar o aberto.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Máquina de moer versos




















Com você eu iria a                 Meca
       à margem
                       nossas vidas menos
        sábado à tarde                  narcômano
 mínimo                 figura            zigurate
obsidiana                a poesia quase
            deplorável fuga                    novamente
o deserto             palavras
              em                       debandada
        arrebatamento                   em estilhaços.
     

sábado, 3 de novembro de 2012

Efígie atlântida























Encontrei este poema de Aristeas de Proconeso, poeta grego (680 a.C. - 540 a.C.), no trem em que eu viajava para Santa Cruz.Embora não saiba grego muito bem, apelei para os espíritos e consegui fazer uma tradução razoável, embora cheia de lacunas.


1.
Não desabe
outra vez
cornija
e arquitrave
sobre os passos
de paixão indelével.

2.
Eros
em seu templo
sustente
erosão
nas colunas de carne
e carícia.

3.
Sacerdotisa
pítia
impiedosa
não profira
as sílabas
assassinas.

3.
O oráculo
de Delfos
guarde os véus
da tempestade.

4.
Pallas Athena
preserve o sangue
da coruja
em cratera de ouro
fora do alcance
de lanças macedônias.

5.
Afrodite
permita os prazeres viperinos
do cerimonial
de putas sagradas
em troca de sete virgens,
folhas de murta e romãs frescas.

6.
Dyonisos
libere a via dos excessos,
o trânsito do transe
de bacantes embriagadas
e nuas
no palco em escombros.

7.
Zeus
traiçoeiro e intrigante
lance raio fulminante
sobre as tropas espartanas
implacáveis na conversão
de tumulto em túmulo.

α 
Não desabe novamente
a não ser
sobre meu corpo
pulsando como louco
no porto de Pireu.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ANI(AD)VERSÁRIO (Versão resmaterizada)




















Sessenta naves naufragadas
de uma frota demente:
prova contundente
que só navega de verdade
quem se arrisca verticalmente.

Cego da ausência dos olhos amados,
qualquer ilha no horizonte
é abismo incandescente.

Nenhum futuro a bordo,
nenhum felicidade à frente,
à beira de todos os perigos
do mar em turbulência.

Navego a mil nós por hora,
todas as velas velozes
ao sopro violento dos ventos.
Sem pânico,
sem arrependimento,
voo para o fundo dos seus olhos
a mil milhas de mim.

Não maldigo a sereia
cujo canto me afundou:
o verde licor da vida
só em seus lábios bebi.


Tubarão




Um vira-lata chamado Tubarão chegou ao fundo do oceano no fim da rua. De nada adiantou latir para a parede nua ou suplicar passagem a muro inflexível. O oceano é espaço aberto ao abandono, sem portas ou via de escape. Murcho e exausto, o cão vadio comemora o seu aniversário. Criado nas ruas onde pastam submarinos de ouro e plástico, guarda o fôlego em subterrâneos. Encurralado e submerso, o vira-lata cresce  incontrolavelmente como uma estrela gigante na zona morta da cidade invisível.

A morte roeu a corda


















Soube, naquela hora, que algo se partira para sempre em sua alma, por se quebrar e por ir embora. Uma corda esticada em máxima tensão amorosa cessara a música em que mergulhara tanto afeto e delicadeza. Sabia agora que a corda sempre arrebenta do lado imprevisível da esfera. A mesma corda frágil e fina que modulava felicidade providenciada de modo atento e sereno uma forca bem firme. Nada podia fazer, já não possuía pescoço para mais uma morte.

Passagem










































Beco sem saída
nenhum
enquanto houver
acesa
a lâmpada
da pulsação
e o desvio
da surpresa.