sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DNAniversário


















Sessenta e duas naves naufragadas
de fragmentada frota delirante:
prova definitiva
de que só navega de verdade
quem se arrisca visceralmente.

Cego da ausência dos olhos amados,
qualquer ilha no horizonte
(sob o cerco de Circe)
é abismo incandescente.

Nenhum futuro a bordo,
nenhuma felicidade à frente.
À beira de todos os perigos.

Navego a mil furos por hora,
todas as velas velozes
ao sopro violento dos ventos.
Sem pânico,
sem arrependimento,
na vazante do fundo dos seus olhos
a mil milhas de mim distantes.

Não amaldiçoo as fissuras de palavras
voláteis abrindo o casco
à correnteza de tempos sombrios,
líquida serpente a beijar de morte
todos os navios.
Peito e palavras sempre abertos
ao instável horizonte.
Levantar âncora
e ultrapassá-lo:
amálgama de travessia e afundamento.

Só se aventura de verdade
quem navega verticalmente.

Sessenta e duas naus carregadas
de ouro e inundações contínuas
inauguram o deserto das águas.



3 comentários:

  1. Não sei se aplaudo... se lhe dou parabéns... pois "levantar âncora e ultrapassá-lo, no beijar da morte... é realmente travessia e afundamento"... aqui em sessenta e nove naves naufragadas!
    Abraço.

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  2. Célia e Lara, obrigado por navegarem nas águas desse poema. Abs

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